"Rough and Rowdy Ways"

Ano: 2020
Selo: Columbia
Gênero: Rock, Blues, Americana
Para quem gosta de: Neil Young e Leonard Cohen
Ouça: I've Made Up My Mind e Murder Most Foul
Nota: 9.0

Crítica | Bob Dylan: “Rough and Rowdy Ways”

Passado, presente e futuro se confundem nas canções de Rough and Rowdy Ways (2020, Columbia). Primeiro trabalho de inéditas de Bob Dylan desde o contido Tempest (2012), o registro nasce como um resgate meticuloso das histórias e experiências vividas pelo músico norte-americano. São canções que costuram seis ou mais décadas de referências, citações a personagens esquecidos e recordações pessoais compartilhadas pelo artista. Instantes em que o compositor de clássicos como Blowin’ in the Wind, Hurricane e The Times They Are a-Changin utiliza da relação com a morte, memórias e o peso da passagem do tempo como principal componente criativo para o fortalecimento da obra.

Não por acaso, Dylan fez de Murder Most Foul, faixa mais extensa do disco, a primeira composição a ser apresentada ao público. São pouco menos de 17 minutos em que o músico parte do assassinato de John F. Kennedy, quando tinha apenas 22 anos, para mergulhar em um universo de pequenas citações que apontam para velhos conhecidos, como The Beatles, Billy Joel, The Who e Fleetwood Mac, além, claro, de eventos importantes, como o festival de Woodstock, trechos de livros, filmes e recortes pontuais extraídos de diferentes campos da cultura norte-americana. Um lento desvendar de ideias e experiências sentimentais, conceito que se reflete não apenas na melancolia dos versos, mas, principalmente, na fina base instrumental que serve de sustento ao disco, sempre detalhista.

É dentro desse território tão particular que Dylan orienta a experiência do ouvinte durante toda a execução de Rough and Rowdy Ways. Composições deliciosamente longas, sempre descritivas, como se diferentes obras fossem condensadas dentro de um único registro. Mesmo quando reflete sobre o amor, como em I’ve Made Up My Mind to Give Myself to You, há sempre um contexto melancólico e nostálgico no processo de utilização das palavras, como se tudo apontasse para o passado. “Eu viajei por um longo caminho de desespero / Não conheci outro viajante por lá / Muitas pessoas se foram, muitas pessoas que eu conhecia / Eu decidi me entregar a você“, confessa, sempre olhando para trás.

Com base nessa estrutura, difícil não lembrar dos soturnos You Want It Darker (2016), de Leonard Cohen, Blackstar (2016), de David Bowie. Trabalhos também influenciados pela aproximação da morte, o peso da memória e a busca por libertação pessoal, conceito que pontua grande parte das canções assinadas por Dylan no presente álbum. Não se tratada necessariamente de uma despedida, mas de um resgate curioso das próprias vivências e emoções. Mesmo base instrumental do disco, completa pela presença do baterista Matt Chamberlain (Bruce Springsteen, Kanye West), o baixista Tony Garnier (Tom Waits, Paul Simon) e o guitarrista e parceiro de longa data Charlie Sexton (Spoon, Lucinda Williams), contribui para esse resultado. São delicadas camadas instrumentais que se revelam em uma medida própria de tempo, proposta que vai da introdutória I Contain Multitudes à derradeira Murder Most Foul.

Dos poucos momentos em que perverte essa estrutura, Dylan e seus parceiros de estúdio se entregam ao blues em meio a guitarras carregadas de efeitos, pianos e batidas cuidadosamente encaixadas dentro de estúdio. Canções como a crescente Goodbye Jimmy Reed, Crossing the Rubicon e False Prophet em que o músico estadunidense traz de volta a essência dos primeiros registros da fase elétrica, rompendo com a porção atmosférica da obra. É como se diferentes fases do artista fossem resgatadas ao longo do trabalho, proposta que vai do cancioneiro norte-americano ao jazz, do rock ao country em uma linguagem sempre cuidadosa, servindo de passagem para a breve interferência de nomes como Fiona AppleBlake Mills.

Trabalho mais significativo de Dylan desde Modern Times (2006), Rough and Rowdy Ways é, assim como os cultuados Time Out of Mind (1997) e Oh Mercy (1989), um ponto de ruptura frente à morosidade auto-imposta pelo artista. Longe do resgate proposto nos antecessores Shadows in the Night (2015), Fallen Angels (2016) e Triplicate (2017), trilogia em que decidiu revisitar diferentes clássicos da música norte-americana, o cantor e compositor de Minnesota se permite criar novamente, revelando ao público uma de suas obras mais preciosas. Composições que parecem dançar pelo tempo, como um passeio delicado por tudo aquilo que o músico tem produzido desde o início da carreira, porém, sempre mirando o futuro.