"Everything Else Has Gone Wrong"

Ano: 2020
Selo: Mmm... Records / Island / Caroline / Arts & Crafts
Gênero: Indie Rock, Pop Rock
Para quem gosta de: Foals e The Maccabees
Ouça: Everything Else Has Gone Wrong e Is It Real
Nota: 7.6

Crítica | Bombay Bicycle Club: “Everything Else Has Gone Wrong”

Sem tempo para descanso, os integrantes do Bombay Bicycle Club aproveitaram a boa repercussão em torno do primeiro álbum de inéditas, I Had the Blues But I Shook Them Loose (2009), para investir em uma sequência de registros marcados pela completa versatilidade dos arranjos e busca por novas possibilidades dentro de estúdio. O resultado desse intenso processo criativo está na entrega de obras conceitualmente distintas, vide a forte separação entre Flaws (2010) e A Different Kind of Fix (2011). Um preparativo para o material que seria apresentado em So Long, See You Tomorrow (2014), trabalho mais completo do quarteto e uma inesperada despedida da banda, que decidiu mergulhar em um longo período de hiato.

Seis anos após a entrega do derradeiro registro, o grupo de Londres está de volta com um novo e bem-sucedido trabalho de estúdio. Em Everything Else Has Gone Wrong (2020, Mmm… Records / Island / Caroline / Arts & Crafts), o quarteto britânico não apenas resgata a essência melódica de músicas apresentadas no disco anterior, caso de Luna e Carry Me, como se permite avançar criativamente. Da composição dos arranjos ao evidente amadurecimento na montagem dos versos, tudo soa como um complemento ao som testado em So Long, See You Tomorrow.

Todo o resto deu errado / Acho que encontrei minha paz novamente / E sim, encontrei meu segundo vento“, canta o vocalista Jack Steadman, na esperançosa faixa-título do disco, canção que se projeta como um mantra, efeito direto da poesia cíclica que serve de complemento aos arranjos. É como se cada componente da faixa exercesse uma função específica dentro de estúdio, estrutura que se completa pelo uso destacado das guitarras, sempre radiantes, e vozes duplicadas, lembrando a força criativa de coletivos como The New Pornographers e Broken Social Scene. O mesmo Bombay Bicycle Club de outrora, porém, visivelmente renovado, sensação que se reflete até a faixa de encerramento do disco, Racing Stripes.

Exemplo disso está em I Can Hardly Speak. Marcada pela riqueza dos sintetizadores, arranjos de cordas e metais, a canção parte dessa base detalhista como um estímulo para a composição dos versos de Steadman, sempre intimistas, direcionamento evidente durante toda a execução do trabalho. “Você diz que pode ver meus ossos / Mas eu posso ver através de você / Muitos rostos para agradar / Não consigo ver um lugar para mim“, confessa. O mesmo lirismo entristecido acaba se refletindo mais à frente, em Eat, Sleep, Wake (Nothing But You). “Vamos atravessar o parque, seguir o caminho / Eu não posso seguir o caminho / Porque eu sonho com nada além de você“, canta enquanto melodias sujas correm ao fundo da canção, proposta que naturalmente aponta para a obra de Dismemberment Plan, Grandaddy e outros nomes de destaque da cena norte-americana.

De fato, Everything Else Has Gone Wrong parece muito mais um diálogo do grupo com a sonoridade além-mar do que um novo olhar sob produção britânica. A própria escolha de John Congleton (St. Vincent, Angel Olsen) como produtor do disco serve de reforço a esse novo direcionamento estético. Claro que isso não interfere na produção de músicas ainda íntimas de outros grupos locais. É o caso de Is It Real, composição que parece apontar para o início dos anos 1990, lembrando o trabalho de veteranos como The La’s e Pulp, efeito direto da poesia simples e guitarras que parecem pensadas para grudar na cabeça do ouvinte logo em uma primeira audição.

Pontuado por instantes de maior leveza, como em Good Day, e colaborações pontuais, caso de People People, parceria com Liz Lawrence, Everything Else Has Gone Wrong mostra um Bombay Bicycle Club em pleno domínio da própria obra. Não se trata de um disco revolucionário ou um possível avanço conceitual em relação aos antigos trabalhos da banda, mas uma clara tentativa do quarteto em brincar com a própria identidade sonora dentro de estúdio. São melodias e versos que seguem exatamente de onde o grupo britânico parou há seis anos, prova de que o longo período de silenciamento apenas contribuiu para a composição do presente álbum.