"Manchaca Vol. 1"

Ano: 2020
Selo: OAR
Gênero: Rock Psicodélico, Experimental
Para quem gosta de: O Terno, Tagore e Bike
Ouça: Inocência, Água e Cães do Ódio
Nota: 8.0

Crítica | Boogarins: “Manchaca Vol. 1”

Em 2016, enquanto excursionavam pelos Estados Unidos para a divulgação de Manual (2015), segundo álbum de estúdio do Boogarins, os integrantes da banda goiana pararam em Austin, no Texas, para uma residência de quatro apresentações no Hotel Vegas, conhecida casa de shows por onde passaram diferentes nomes da cena alternativa. Durante um período de seis semanas, o grupo alugou uma casa na região sul da cidade, em Manchaca Road, e mergulhou na produção de um repertório essencialmente delirante, sempre marcado por instantes de breve improviso, guitarras altamente distorcidas e vozes carregadas de efeitos. O resultado desse intenso processo criativo está na entrega dos dois últimos trabalhos de estúdio do quarteto, os cultuados Lá Vem a Morte (2017) e Sombrou Dúvida (2019).

Entretanto, muito se engana quem pensa que o repertório apresentado apenas nesses dois discos concentra tudo aquilo que Dinho Almeida (voz e guitarra), Benke Ferraz (guitarra, sintetizadores), Ynaiã Benthroldo (bateria) e Raphael Vaz (baixo) produziram durante a estadia em Austin. Longe dos palcos, isolada por conta da pandemia de Covid-19, a banda goiana decidiu revisitar parte do extenso catálogo de faixas que vinha se acumulando ao longo dos anos, estímulo para o fino repertório embala a experiência do ouvinte em Manchaca Vol. 1 (2020, OAR).

Deliciosamente inexato, como tudo aquilo que a banda tem produzido desde a estreia com As Plantas Que Curam (2013), a coletânea de “memórias, sonhos, demos e sobras de estúdio”, como resume o texto de apresentação do trabalho, convida o ouvinte a mergulhar em um território marcado pela incerteza das ideias. São texturas eletrônicas, vozes submersas e frações instrumentais que mudam de direção sem ordem aparente, jogando com a experiência do público do início ao fim da obra. Pouco mais de 50 minutos em que o quarteto amplia tudo aquilo que foi apresentado em Desvio Onírico (2017), registro de quatro faixas que concentra parte da essência criativa detalhada durante as sessões em Manchaca Road.

Dentro desse cenário onde tudo é possível, surgem faixas como a crescente Cães do Ódio, música marcada pelo uso destacado da produção eletrônica, vozes ecoadas e guitarras que parecem saídas de algum remix dos anos 1990. Em Are You Crazy, Julian?, terceira composição do álbum, são pequenos flertes com o jazz que mostram a capacidade do quarteto em se reinventar criativamente, conceito que volta a se repetir mais à frente, em Sai de Cima, um registro ao vivo da passagem do grupo pelo Hotel Vegas. Mesmo esboços, como Make Sure Your Head Is Above (Voice Memo), Água e ASMR Manchaca (sombrouduvida genesis), ganham destaque dentro do disco, bagunçando a experiência do ouvinte em meio a sobreposições etéreas e retalhos que seriam melhor incorporados em Sombrou Dúvida.

Claro que essa busca por um som fragmentado não interfere na entrega de músicas minimamente acessíveis. É o caso da já conhecida Inocência. Originalmente lançada no início deste ano, como parte do curtinho Fefel 2020, a canção mostra a capacidade da banda goiana em dialogar com uma parcela cada vez maior do público, conceito que se reflete não apenas na poesia da canção – “Vem falar de inocência / Quem se diz inocente / Já não sabe brincar” –, como no tratamento dado aos arranjos e percussão detalhista. A própria Tanta Coragem, também parte da mesma sequência de faixas, mostra a capacidade do grupo em revelar canções que parecem pensadas para grudar na cabeça do ouvinte logo em uma primeira audição.

Primeira parte da coletânea dividida em dois blocos que será apresentada ao público nos próximos meses, Manchaca Vol. 1 nasce como um convite a mergulhar no curioso processo de composição da banda goiana. Da seleção das faixas à disposição do repertório, cada fragmento do disco funciona como um complemento necessário ao material entregue pelo quarteto nos últimos anos. É como um ponto de partida para uma nova fase na carreira do Boogarins. Instantes em que o grupo mantém firme a relação com o próprio passado, porém, deixa o caminho totalmente aberto para os futuros lançamentos.