"Jaime"

Ano: 2019
Selo: ATO
Gênero: Soul, Blues, R&B
Para quem gosta de: Alabama Shakes e Leon Bridges
Ouça: Stay High e he Loves Me
Nota: 8.5

Crítica | Brittany Howard: “Jaime”

Brittany Howard sempre tratou dos próprios sentimentos como um estímulo natural para a composição de cada novo trabalho de estúdio. Seja como integrante do Alabama Shakes, com quem lançou dois ótimos álbuns de inéditas — Boys & Girls (2012) e Sound & Color (2015) —, ou na crueza de Thunderbitch (2015), primeiro registro da banda de mesmo nome que aporta em novos territórios criativos, tudo que se relaciona com a obra da cantora e compositora norte-americana utiliza de experiências particulares como um componente central para a formação dos versos. Melancolia e libertação, dor e entrega romântica, proposta que ganha ainda mais destaque nas canções de Jaime (2019, ATO).

Primeiro álbum de Howard em carreira solo, o registro que conta com produção, versos e arranjos assinadas inteiramente pela artista, encontra em memórias da infância e inquietações existencialistas a base para cada uma das canções que recheiam o trabalho. Com título e parte das letras inspiradas pela irmã da cantora, morta ainda na adolescência, Jaime estabelece em cada criação um exercício de profunda entrega sentimental. É possível sentir a dor e a alegria da compositora a cada novo fragmento do disco, como um versão ampliada de tudo aquilo que a musicista havia testado em Sound & Color.

Não por acaso, Howard escolheu History Repeats e He Loves Me como parte da sequência de abertura do disco, apontando a direção lírica e instrumental seguida no restante da obra. De um lado, a busca por libertação sentimental, ainda que embebida em saudade (“Eu só não quero voltar a este lugar novamente / Quero dizer, eu chorei um pouco / Tentei um pouco, falhei um pouco / Não quero fazer de novo“); no outro, a forte religiosidade e louvor a Deus, uma das marcas do trabalho da cantora (“Eu sei que ele ainda me ama quando / Eu estou fumando maconha / Me ama quando estou bebendo demais / Ele me ama então, sim“). Um crescente borbulhar de emoções que faz de Jaime um trabalho maior a cada nova audição.

Parte desse resultado vem da escolha da artista em trabalhar as canções em pequenos blocos conceituais, costurando diferentes sonoridades, gêneros e temas instrumentais em um curto espaço de tempo. São variações melódicas que vão do jazz ao R&B, do soul ao blues em uma interpretação ainda mais detalhista, mesmo que caseira, do som produzido pelo Alabama Shakes. Exemplo disso está no minimalismo de Stay High, uma homenagem ao pai da cantora que se espalha em meio a arranjos acústicos, porém, completos pelo xilofone descompassado, propositadamente torto, como se Howard brincasse com a interpretação do ouvinte.

Observado de maneira atenta, Jaime é uma obra inteira guiada pelos instantes. São as vozes complementares de Tomorrow; a pregação do pastor Terry K. Anderson, na já citada He Loves Me, ou mesmo o experimentalismo jazzístico de 13th Century Metal, música que destaca a participação dos músicos de apoio do disco, Zac Cockrell (baixo), Nate Smith (bateria) e, principalmente, Robert Glasper (teclados). São diferentes obras organizadas dentro de um único trabalho, como se do repertório acumulado pela artista em uma década de carreira, pequenos retalhos conceituais fossem recortados e colados dentro de um único álbum.

É justamente essa colisão de ideias que faz de Jaime uma obra tão interessante. Do momento em que tem início, em History Repeats, até alcançar a derradeira Run to Me, com seus sintetizadores e melodias atmosféricas, tudo se projeta como um delicado resgate conceitual do material produzido pela cantora ao longo da carreira. O mais gratificante talvez seja perceber a forma como a artista parece longe de sufocar em uma preguiçosa zona de conforto, estabelecendo instantes de breve improviso, proposta que torna a experiência do ouvinte sempre acolhedora e incerta na mesma proporção.