"Brutalism"

Ano: 2019
Selo: ANTI-
Gênero: Indie Rock, Pop Rock
Para quem gosta de: Beach Fossils e DIIV
Ouça: 626 Bedford Avenue e Nervous
Nota: 7.3

Crítica | “Brutalism”, The Drums

Poucas vezes antes um registro produzido pelo The Drums pareceu tão versátil e conceitualmente amplo quanto o recente Brutalism (2019, ANTI-). Primeiro álbum de estúdio da banda nova-iorquina desde o bom Abysmal Thoughts (2017), obra que serviu como regresso ao pós-punk incorporado durante o lançamento de Portamento(2011), o novo disco, agora centrado apenas na figura de Jonathan Pierce, encontra em relacionamentos fracassados e conflitos intimistas a base para um trabalho tão sensível quanto dolorosamente provocante.

Quando estou sozinho à noite e a TV está ligada / Eu pego sua camiseta e coloco no meu rosto / Eu coloco minha mão no peito, então parece que você está aqui / E eu voaria dez mil milhas apenas para te beijar novamente“, confessa na delicada faixa-título do disco. São versos consumidos pela saudade e a permanente sensação de abandono do eu lírico, conceito que vem sendo aprimorado pelo músico nova-iorquino desde as primeiras canções autorais, vide o material apresentado em Summertime! EP (2009).

Exemplo disso está na econômica Nervous. “Duas noites atrás nós dissemos adeus / Em um carro emprestado nas colinas de Hollywood / Eu segurei você, mas eu deveria ter te segurado mais e mais / Dois anos de riso e um ano de dor / Venha parar até o seu lugar de descanso final“, canta enquanto o violão tímido e a voz crua se espalha lentamente, atraindo o ouvinte para dentro desse ambiente dominado pela força dos sentimentos. Pouco mais de quatro minutos em que Pierce não apenas se revela por completo, como desaba emocionalmente.

Claro que isso está longe de parecer uma novidade na carreira do The Drums. Basta um rápido passeio por algumas das composições mais sensíveis da carreira da banda, como I Don’t Know How To Love, Down By The Water e Days, para perceber a forma como Pierce encontrou nos próprios sentimentos a base para um precioso alicerce lírico. A principal diferença talvez esteja na forma como o músico norte-americano parece tratar cada fragmento do disco de forma sempre honesta, por vezes crua, estrutura que garante fino toque de renovação ao trabalho.

Outro importante elemento para o crescimento da obra está na pluralidade de ritmos incorporados pelo músico. Logo na abertura do disco, são os sintetizadores e temas eletrônicos de Pretty Cloud, faixa que aponta para a indietronica de nomes como The Postal Service e Baths. Em 626 Bedford Avenue, um pop litorâneo e refrescante, estrutura que se reflete de forma enérgica nos primeiros minutos da obra, em Body Chemistry, faixa que mais se aproxima dos primeiros registros de estúdio do grupo.

Sequência e fina desconstrução de tudo aquilo que a banda nova-iorquina vem explorando nos últimos anos, Brutalism traz de volta uma série de conceitos originalmente testados no fraco Encyclopedia (2014), porém, de forma bem-resolvida, como se Pierce equilibrasse o próprio desejo de experimentar dentro de estúdio. O resultado desse evidente controle está na produção de um trabalho que avança criativamente, porém, preserva o lado mais acessível da banda, efeito reforçado pela poesia intimista e sempre sensível da obra.