"Buoys"

Ano: 2019
Selo: Domino
Gênero: Indie, Experimental, Psicodélica
Para quem gosta de: Animal Collective e Avey Tare
Ouça: Inner Monologue e Dolphin
Nota: 7.5

Crítica: “Buoys”, Panda Bear

Durante mais de uma década, o pop psicodélico refinado por Noah Lennox em Person Pitch (2007) não apenas orientou as canções do músico norte-americano em carreira solo, vide obras como Tomboy (2011) e Panda Bear Meets the Grim Reaper (2015), como acabou respingando em parte expressiva da discografia produzida pelo Animal Collective. Uma criativa colagem de ideias e referências que se reflete na entrega de clássicos como Merriweather Post Pavilion (2009), ou mesmo na produção de registros pouco inventivos, caso do mediano Painting With (2016).

Entretanto, para além desse universo de fórmulas coloridas, sintetizadores e percussão destacada, foram os instantes de profundo recolhimento e estranheza que fizeram dos primeiros registros do Panda Bear obras tão expressivas. Trabalhos como Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished (2000), um dos primeiros experimentos do músico e parceria com Avey Tare, ou mesmo o semi-acústico Young Prayer (2004), segundo álbum de Lennox em carreira solo. Esboços criativos que se projetam sem ordem aparente, conceito que volta se repetir com a chegada do curioso Buoys (2019, Domino).

Concebido durante os intervalos da turnê que celebrou o clássico Sung Tongs (2004), o trabalho de apenas nove faixas parte da utilização de guitarras acústicas e ambientações introspectivas como uma completa fuga do som incorporado ao antecessor Panda Bear Meets the Grim Reaper. Um limitado conjunto de ideias que cresce no uso restrito dos sintetizadores, melodias e vozes, estrutura que acaba despindo Lennox de todo e qualquer excesso, direcionamento explícito mesmo nos versos das composições.

Sempre foi assim, tão quieto? / Eu sempre estaria lá para quando você precisasse … Até o fim / Para as coisas que vemos“, canta logo nos primeiros minutos do disco, em Dolphin, um indicativo da poesia contemplativa que orienta a experiência do ouvinte durante toda a execução da obra. Versos ora enigmáticos, ora acolhedores, como um permanente diálogo entre o cantor e o próprio público, vide faixas como a reconfortante Token (“Deixe-me pegar algo para você / Quente para enfrentar o frio mais frio“) ou a dolorosa Inner Monologue (“Eu não posso me tornar / Um a um“).

Tamanha sensibilidade na construção dos versos não apenas distancia Lennox dos antigos trabalhos, como aproxima o músico norte-americano de uma série de novas possibilidades e referências. A principal delas talvez seja a forte similaridade com a obra de Arthur Russell, em World of Echo (1984), efeito direto da voz ecoada, carregada de efeitos, além, claro, da miudeza dos arranjos que servem de complemento à poesia intimista do cantor. A própria utilização de temas acústicos e variações lisérgicas que apontam para o folk dos anos 1970 garante novo acabamento ao som entregue pelo artista.

Com base nessa estrutura, Lennox e o principal parceiro de produção do disco, o músico Rusty Santos (Owen Pallet, Born Ruffians), entregam ao público um álbum tão íntimo dos antigos trabalhos de Panda Bear quanto uma obra sutilmente guiada pela transformação. Trata-se de um álbum claramente contido quando próximo dos antigos projetos do cantor e compositor norte-americano, porém, convincente, ainda mais quando voltamos os ouvidos para os últimos discos entregues pelo próprio Animal Collective.