"Hedonism"

Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Baleia, Moons e Glue Trip
Ouça: Gamma-Ray Burst e Induction Bread
Nota: 8.0

Crítica | Cambriana: “Hedonism”

Ponto de equilíbrio entre o experimentalismo sutil que embala as canções de Manaus Vidaloka (2018) e rock melódico detalhado em House of Tolerance (2012), Hedonism (2020, Independente), terceiro e mais recente álbum de estúdio do Cambriana, reflete o completo domínio de Luís Calil dentro de estúdio. Mais uma vez acompanhado pelo parceiro Pedro Falcão, com quem divide parte dos instrumentos e composições ao longo da obra, o cantor, compositor, multi-instrumentista e produtor goiano garante ao público uma obra essencialmente versátil, produto de quase uma década de carreira, colaborações com diferentes artistas e versos que alternam entre tormentos intimistas e momentos de profunda exposição sentimental.

Não por acaso, a dupla inaugura o álbum com a crescente Induction Bread. São delicadas paisagens instrumentais que se espalham em meio a conflitos pessoais (“Chega agora / Venha comigo / Uma vez que eu terminar / Com os outros“), citações a personagens importantes da história da música (“Se eu algum dia voltar para Fiona / Se eu começasse alguma merda com Joni / Se estou apostando tudo na Ella“) e versos consumidos pelo desejo latente (“Ligando para todos os números como se fosse 9-1-1 / Apenas tentando me divertir, por favor“). Instantes que tendem ao caos, porém, estabelecem na minúcia dos arranjos um importante componente de equilíbrio e leveza.

É partindo justamente dessa divisão entre o lirismo angustiado dos versos e o refinamento dado aos arranjos que Calil e Falcão orientam a experiência do ouvinte durante toda a execução do registro. A própria distribuição das faixas no interior do álbum parece contribuir para esse resultado. Exemplo disso acontece logo nos primeiros minutos do disco, na sequência composta por Aroma e a já conhecida Gamma-Ray Burst. Pouco mais de cinco minutos em que a banda goiana parte de uma base deliciosamente atmosférica para mergulhar em um som quase turbulento, estrutura que se completa pela estranheza das guitarras, sintetizadores e batidas rápidas que fazem lembrar do som produzido em In Rainbows (2007), uma das grandes obras do Radiohead.

Entretanto, mesmo nesse cenário onde as regras parecem previamente estabelecidas, não são poucas as composições que encantam pela completa imprevisibilidade dos elementos. Exemplo disso acontece na própria faixa-título do álbum. Enquanto os versos da canção se aprofundam em meio a temas contemplativos (“Então continue andando / Deixe passar por você / Nem muito baixo nem muito alto / Todo dia e toda noite“), musicalmente, a dupla goiana parece jogar com as possibilidades. São batidas tortas, ruídos e instantes de breve improviso, proposta que naturalmente amplia tudo aquilo que foi apresentado durante o lançamento de Manaus Vidaloka.

O mesmo direcionamento acaba se refletindo mais à frente, em Huge. Uma das primeiras faixas do disco a serem apresentadas ao público, a canção ganha forma em meio a temas labirínticos e vozes tratadas de forma quase instrumental, proposta que se conecta diretamente à percussão torta que corre ao fundo da composição. Mesmo músicas como as delicadas This Water e Rave On em nenhum momento tendem ao óbvio, detalhando momentos de breve improviso e propositada ruptura criativa. É como se Calil e Falcão confrontassem o ouvinte durante toda a execução do álbum, rompendo de maneira sensível com qualquer traço de comodidade.

Nesse sentido, Hedonism se revela como um trabalho tão acessível e íntimo dos primeiros registros da banda quanto capaz de provocar o ouvinte. Composições que partem de uma estrutura linear, sempre convidativa, porém, acabam se fragmentando de forma a revelar um universo de pequenos detalhes, quebras e temas pouco convencionais. Um delicado exercício criativo que dialoga diretamente com a imagem de capa do álbum, uma fotografia do Vale da Lua, na Chapada dos Veadeiros, mas que ganha ainda mais destaque em cada mínimo retalho instrumental, batida e voz que surge e desaparece do primeiro ao último instante do álbum.