"Making A Door Less Open"

Ano: 2020
Selo: Matador
Gênero: Indie Rock, Eletrônica, Rock
Para quem gosta de: Modest Mouse e Snail Mail
Ouça: Can't Cool Me Down e Martin
Nota: 6.0

Crítica | Car Seat Headrest: “Making A Door Less Open”

Quando nada mais der certo criativamente, talvez seja a hora de investir na música eletrônica. Mesmo longe de parecer um tratado, essa tem sido a direção assumida por diferentes realizadores ao longo da última década. São nomes como ANOHNI, Bon Iver, St. Vincent e Arcade Fire que encontraram no uso de experimentações sintéticas a passagem para um novo território conceitual. Canções adornadas pelo uso de sintetizadores, batidas e vozes carregadas de efeitos, estrutura que assume novo direcionamento no material entregue em Making A Door Less Open (2020, Matador), mais recente álbum de estúdio do Car Seat Headrest.

Primeiro registro de inéditas do grupo comandado por Will Toledo desde o referencial Teens of Denial (2016), obra em que resgata a essência de veteranos como Pavement e Modest Mouse, o novo disco preserva parte dessa identidade criativa, porém, estabelece no uso de ambientações eletroacústicas a base para grande parte das faixas. Exemplo disso está na introdutória Weightlifters, canção que se espalha em meio a programações eletrônicas, sintetizadores e vozes tratadas como um instrumento, estímulo para grande parte das faixas que o músico e seus parceiros de banda, Ethan Ives, Andrew Katz e Seth Dalby, revelam até o último instante da obra.

São fragmentos melódicos e sintetizadores que buscam respirar em meio a camadas de guitarras, como uma extensão do paralelo 1 Trait Danger, projeto dividido entre Toledo e Katz. O problema é que tudo se revela ao público de maneira pouco consistente e simplista, como se um time de instrumentistas que nunca teve qualquer tipo de contato com a produção eletrônica se envolvesse na criação de uma obra do gênero. Dessa forma, Making A Door Less Open cresce como um exercício puramente estético, como uma maquiagem conceitual em um registro que pouco avança em relação aos antigos trabalhos do Car Seat Headrest.

Não por acaso, algumas das principais composições do disco são justamente aquelas que mais se aproximam dos últimos registros da banda. É o caso de Hollywood e Martin, músicas que ganham forma em meio a boas guitarras, versos pegajosos e melodias deliciosamente nostálgicas, estrutura que aponta para o trabalho de veteranos como Smash Mouth a Weezer, algumas das principais referências criativas de Toledo. Mesmo a acústica What’s With You Lately?, com sua poesia confessional e versos melodramáticos, reflete uma verdade que se faz inexistente no restante da obra, vide o experimentalismo frio de Hymn.

Entretanto, mesmo imerso nesse cenário de forte instabilidade criativa, interessante perceber um número específico de faixas marcadas pelo evidente equilíbrio de Toledo. É o caso de Can’t Cool Me Down, música que preserva o lado radiante dos antigos trabalhos do Car Seat Headrest, porém, encontra no uso de sintetizadores e batidas eletrônicas a passagem para um novo universo criativo. Mesmo There Must Be More Than Blood, com suas ambientações eletrônicas, sustenta na força das guitarras e versos melancólicos uma das grandes composições do artista. “Deve haver mais do que o sangue que nos mantém unidos / Deve haver mais do que o vento que nos afasta / Deve haver mais do que lágrimas quando puxam a cortina / Deve haver mais do que o medo“, canta.

Obra de ideias, Making A Door Less Open, como o próprio título aponta, mostra a busca de Toledo e seus parceiros de banda em provar de novas possibilidades dentro de estúdio. São canções que transitam por entre gêneros e estruturas pouco usuais em uma linguagem que muito se assemelha ao trabalho de Beck, outra grande inspiração do músico, passada a boa fase em Sea Change (2002). Uma tentativa, talvez superficial do artista, em ampliar os próprios domínios criativos, porém, preservando tudo aquilo que tem sido apresentado desde que Teens of Style (2015) trouxe maior notoriedade ao Car Seat Headrest.