"Carabobina"

Ano: 2020
Selo: OAR
Gênero: Indie Rock, Pop Psicodélico
Para quem gosta de: Boogarins, Catavento e Guaxe
Ouça: Pra Variar, Em Dezembro e Mariposa
Nota: 8.4

Crítica | Carabobina: “Carabobina”

Camadas de guitarras, vozes tratadas como instrumentos e instantes de doce improviso. Uma vez dentro do homônimo debute do Carabobina, dupla composta pelo cantor e compositor goiano Raphael Vaz, o Fefel da Boogarins, e a multi-instrumentista, cantora e engenheira de som venezuelana Alejandra Luciani, cada fragmento da obra revela ao público um colorido mosaico de pequenos detalhes. São experimentações crocantes, delírios e melodias tortas que se entrelaçam de maneira sempre imprevisível, como um labirinto conceitual de formas e sentimentos que não apenas exigem ser absorvidos, como desvendados pelo ouvinte.

Naturalmente íntimo do som produzido por outros representantes da psicodélica cena brasileira, o trabalho de nove faixas substituí o caráter etéreo de outros exemplares do gênero para investir em uma seleção de músicas marcadas pelo reducionismo dos arranjos e inserções sempre pontuais. É como se Luciani e Vaz despissem o álbum de todo e qualquer excesso, fazendo de cada componente do disco, mesmo o mais inexpressivo, um precioso objeto de destaque. São texturas de sintetizadores, batidas inexatas, vozes e ambientações picotadas que avançam em uma medida própria de tempo, proposta que tinge com incerteza cada novo movimento da dupla dentro de estúdio.

Não por acaso, Luciani e Vaz escolheram Pra Variar como faixa de abertura do disco. São pouco mais de dois minutos em que a dupla passeia em meio a experimentações sintéticas, vozes carregadas de efeitos e incontáveis variações rítmicas, mudando de direção a todo momento. “Derramei de tudo dentro daqui / Deixo secar, espero secar / Me afoguei nas coisas que não se vão / Dói um pouquinho, só um pouquinho“, cresce a letra da canção, como um mantra que se completa pela fina base instrumental que serve de sustento à faixa. Instantes em que os dois artistas buscam estabelecer a própria identidade, porém, longe de qualquer traço de previsibilidade.

Exemplo disso acontece na derradeira Mariposa. De essência atmosférica, a faixa parte de uma base econômica, porém, cresce na colorida sobreposição de ideias e versos sempre sensíveis detalhados por Luciani. “Me sinto como uma mariposa / Nada se perde com um pouco de calor“, canta. São pouco menos de quatro minutos em que o ouvinte é convidado a flutuar em uma nuvem de melodias e formas enevoadas, conceito que acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra. Canções como Viaduto, De Nuevo e demais criações que partem de uma montagem minimalista, porém, crescem de maneira expressiva a cada nova pincelada instrumental.

Claro que isso não interfere na produção de músicas deliciosamente acessíveis e capazes de dialogar com uma parcela ainda maior do público. É o caso de Em Dezembro, quarta faixa do disco. Da construção dos versos, consumidos pela força dos sentimentos (“Quando bate forte um trem ruim / Penso às vezes em coisas tão normais / Isso não sara, mas tudo se arrasta“), passando pelo tratamento dado às guitarras, tudo parece pensado para capturar a atenção do ouvinte. É como se a dupla fizesse das próprias desilusões um componente de fortalecimento para o trabalho, estrutura que se reflete no emaranhado trilíngue que embala a experiência do público até o último segundo da obra.

Entre canções que preservam o que há de mais delirante nas preferências da dupla e momentos de maior comodidade, a estreia do Carabobina cresce como uma obra essencialmente equilibrada. Composições que parecem pensadas para bagunçar a interpretação do público, porém, sempre convidativas, efeito direto do lirismo agridoce que serve de sustento ao disco. São fragmentos instrumentais e poéticos que utilizam de pequenas crises existenciais, romances fracassados e momentos de maior melancolia, fazendo desse aspecto sentimental a base para um registro capaz de envolver e seduzir o ouvinte, mesmo que ele seja incapaz de perceber isso.