"Suddenly"

Ano: 2020
Selo: City Slang / Merge
Gênero: Eletrônica, R&B, Pop Psicodélico
Para quem gosta de: Four Tet e Hot Chip
Ouça: Home, Like I Loved You e Never Come Back
Nota: 8.5

Crítica | Caribou: “Suddenly”

Não foram poucos os caminhos trilhados por Dan Snaith em mais de duas décadas de carreira. Do minimalismo que embala as canções do introdutório Start Breaking My Heart (2000), quando ainda se apresentava sob o título de Manitoba, passando pelo experimentalismo torto de Up in Flames (2003), até alcançar a neo-psicodelia de The Milk of Human Kindness (2005) e Andorra (2007), já como Caribou, sobram instantes de evidente acerto, ruptura estética e busca por novas possibilidades dentro de estúdio. Entretanto, foi com a chegada de Swim (2010), casa de músicas como Odessa e Leave House, além, claro, do doce romantismo detalhado em Our Love (2014), que o produtor canadense alcançou sua melhor forma, dialogando com uma parcela ainda maior do público.

Interessante perceber em Suddenly (2020, City Slang / Merge), décimo e mais recente álbum de estúdio do artista que também se apresenta como Daphni, uma extensão natural de tudo aquilo que Snaith tem produzido desde o início da década passada. São canções que transitam por entre gêneros e sonoridades sempre distintas, porém, conceitualmente amarradas pela base eletrônica que serve de sustento ao disco. Instantes em que o produtor canadense vai da completa leveza, como na introdutória Sister, com seus sintetizadores e melodias atmosféricas, à força das batidas em Never Come Back, música que parece dialogar com o trabalho de contemporâneos como Four Tet e Hot Chip.

Parte dessa riqueza dos detalhes e evidente versatilidade vem do próprio processo de composição do disco. Concebido em um intervalo de cinco anos, Suddenly nasce do esforço de Snaith em organizar os mais de 900 esboços produzidos especialmente para o trabalho. São fragmentos eletrônicos, batidas, melodias, vozes e canções montadas a partir da obra de outros artistas. Exemplo disso está em Home, música formada a partir de trechos de uma faixa homônima lançada por Gloria Barnes nos anos 1970, mas que se completa pela voz doce do compositor canadense. “Tudo parecia tão fácil / Até que ela fez isso sozinha / Há tanta coisa que ela pode me ensinar“, canta em uma delicada reflexão sobre o amadurecimento da própria filha.

São justamente esses versos intimistas e instantes de evidente entrega sentimental que tornam a experiência de ouvir Suddenly tão satisfatória. “Às vezes é demais para eu esconder / Quando tudo fica retorcido por dentro / E eu queria que você estivesse lá, ao meu lado, mas ainda tento / Se você encontrar outra pessoa, ficarei feliz por você“, confessa na agridoce Like I Loved You, música que soa como uma sobra do álbum anterior, porém, dialoga de forma particular com o mesmo R&B empoeirado de nomes recentes como Christine and The Queens e Blood Orange. A própria You and I, logo na abertura do disco, indica o mesmo refinamento poético. “As coisas que eu não consigo explicar / Você e eu / Você sempre esteve comigo / Como uma luz / Interna“, canta de forma melancólica, estímulo para a lenta inserção dos sintetizadores, batidas e vozes que inevitavelmente convidam o ouvinte a dançar.

É partindo justamente desses pequenos instantes que Suddenly ganha forma e cresce. São faixas como Sunny’s Time, canção que vai do uso de pianos cíclicos ao inusitado flerte com o rap, resultando em uma criativa colagem de referências. Em Never Come Back, faixa que soa como uma extensão do material entregue em Our Love, sintetizadores e batidas que apontam para diferentes campos da música eletrônica, como se Snaith confessasse as próprias referências. Mesmo músicas como a curtinha Filtered Grand Piano e Lime refletem a capacidade do artista em jogar com as possibilidades, transitando por entre décadas, gêneros e incontáveis direções temáticas, conceito que se reflete até o pop cósmico da derradeira Cloud Song.

Evidente exercício do completo domínio de Snaith em relação à própria obra, Suddenly funciona como um resumo conceitual de tudo aquilo que o artista canadense tem produzido desde o início da carreira. Da eletrônica dançante de Never Come Back, passando pelo reducionismo de Like I Loved You ao caráter referencial de Home e You and I, evidente é o esforço do produtor em fazer de cada composição um precioso exercício criativo. São ideias que se entrelaçam sem ordem aparente, porém, de forma sempre detalhista, reforçando a percepção de uma obra viva, como se o ouvinte fosse convidado a se perder em um registro que soa transformado a cada nova audição.