"Dedicated Side B"

Ano: 2020
Selo: 604 / School Boy / Interscope
Gênero: Pop, Dance, Synthpop
Para quem gosta de: Charli XCX, Lorde e Robyn
Ouça: This Love Isn't Crazy, Comeback e Solo
Nota: 8.0

Crítica | Carly Rae Jepsen: “Dedicated Side B”

Você nunca sabe que precisa de um disco até ouvir suas canções. Com Dedicated Side B (2020, 604 / School Boy / Interscope) não é diferente. Complemento ao disco homônimo entregue no último ano, o trabalho, mais uma vez, reflete a capacidade de Carly Rae Jepsen em passear pelo pop dos anos 1970 e 1980 de forma deliciosamente nostálgica e autoral. Canções que evocam os primeiros registros de Madonna, flertam com a obra de Donna Summer e Cyndi Lauper, porém, estabelecem no romantismo agridoce da artista canadense, típico do repertório consolidado em Emotion (2015), a passagem para um universo de novas possibilidades e sentimentos tratados de forma sempre confessional, íntimos de qualquer ouvinte.

E por algum tempo, eu estive / Cantando uma canção de ninar a cada noite / Sussurrando que é seu direito de me machucar / Se você quisesse, mas o amor não é cruel“, reflete na inaugural This Love Isn’t Crazy. São pouco menos de quatro minutos em que a cantora não apenas se entrega sentimentalmente, como estabelece na força das batidas, vozes e uso destacado dos sintetizadores a base para grande parte das faixas. Um colorido catálogo de ideias que se completa pela presença do velho colaborador, o multi-instrumentista Jack Antonoff (Lorde, St. Vincent), mas que cresce na forma como a artista reserva ao público um vasto conjunto de experiências românticas e instantes de doce melancolia, como um complemento ao repertório entregue no último ano.

São preciosidades como Felt This Way (“Minha casa é seu corpo, como posso ficar longe?“), This Is What They Say (“Você faz meu batimento cardíaco trabalhar horas extras / Eu quero seu corpo bem acima do meu“) e Solo (“Então, e daí que você não está apaixonada? / Não desperdice suas noites ficando sozinha“), em que Japsen parte de desilusões e conflitos pessoais como forma de dialogar com o ouvinte. Composições que vão do término à reconciliação, do isolamento à busca por um novo amor, proposta que naturalmente aponta para o material entregue em músicas como Run Away with Me, When I Needed You e toda a sequência de faixas apresentadas em Emotion.

De fato, difícil não pensar nas canções de Dedicated Side B muito mais como uma extensão do som produzido em Emotion e Emotion Side B (2016) do que um complemento ao disco distribuído há poucos meses. Salve exceções, como Summer Love, com seus arranjos de cordas e linha de baixo proeminente, íntima da produção dos anos 1970, tudo soa como um resgate conceitual do pop empoeirado da década de 1980. Do minimalismo de Heartbeat, canção que evoca Michael Jackson, passando rock descompromissado de Let’s Sort the Whole Thing Out, com seus xilofones e vozes pegajosas, evidente é o esforço da cantora em mergulhar no que há mais nostálgico na música entregue há quatro décadas.

Entretanto, para além do simples exercício de estilo, sobrevive nas canções de Dedicated Side B a passagem para um dos registros mais sensíveis já produzidos pela cantora. Exemplo disso está na derradeira Now I Don’t Hate California After All, música em que celebra o amor e, pela primeira vez, parece deixar os traumas do passado para trás. “Ele me dá o feriado que eu precisava o tempo todo / Talvez isso seja temporário, mas eu não me importo / Agora eu não odeio a Califórnia depois de tudo“, canta. São versos doces, sempre intimistas, estrutura que acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra, como na já citada Heartbeat (“E eu não quero te contar / Qualquer coisa sobre mim / Porque tudo sobre você / Está acelerando meu batimento cardíaco“) e Window (“Vejo você de uma maneira diferente / Então pegue meus olhos emprestados“).

Parte desse cuidado vem da escolha da própria artista em trazer de volta alguns de seus principais colaboradores em Emotion, como os produtores Ariel Rechtshaid e Christopher J Baran, além, claro, de Dev Hynes (Blood Orange), com quem divide a composição dos versos em This Is What They Say. O resultado desse forte comprometimento criativo está na entrega de uma obra que parece dançar pelo tempo. Canções que passeiam por diferentes décadas, cenas e tendências conceitualmente distintas, porém, sempre regidas pela força dos sentimentos compartilhados pela cantora, minúcia que se reflete tão logo o disco tem início, em This Love Isn’t Crazy, e segue até os últimos segundos de Now I Don’t Hate California After All.