"Pang"

Ano: 2019
Selo: Perpetual Novice
Gênero: Pop, R&B, Art Pop
Para quem gosta de: Carly Rae Jepsen e Charli XCX
Ouça: So Hot You're..., Door e Pang
Nota: 8.6

Crítica | Caroline Polachek: “Pang”

Desejo e melancolia, dor e libertação. Em Pang (2019, Perpetual Novice), primeiro álbum de Caroline Polachek em carreira solo, cada fragmento do disco encontra em memórias e experiências particulares da artista nova-iorquina um natural estímulo para a composição dos versos. “Você tem um jeito de olhar quando me deseja / É como uma bela faca, posicionada exatamente onde o medo deveria estar“, confessa logo nos primeiros minutos do trabalho, na canção que dá título a obra. Uma seleção de poemas provocativos, sempre intimistas, como se do material entregue pela cantora em sua antiga banda, o Chairlift, Polachek fosse além, cuidado que se reflete até a faixa de encerramento do disco, a sensível Parachute.

Sequência ao material entregue em Arcadia (2014), primeiro álbum com o pseudônimo de Ramona Lisa, além, claro, do atmosférico Drawing the Target Around the Arrow (2017), lançado sob o título de CEP, Pang nasce como um evidente ponto de equilíbrio entre o experimentalismo anteriormente testado pela artista e o pop nostálgico que marca a curta discografia do Chairlift. Canções que bebem do som empoeirado da década de 1980, vide a forte similaridade com a obra de Madonna e Stevie Nicks, em So Hot You’re Hurting My Feelings, porém, sempre apontando para o presente, como um diálogo involuntário com a obra de Carly Rae Jepsen, Charli XCX e outros nomes de destaque do gênero.

Parte desse direcionamento que costura passado e presente de forma sempre particular, detalhista, vem da escolha de Polachek em trabalhar ao lado de Danny L Harle (Clairo, Christine and the Queens). Parceiro de longa data da cantora e co-produtor do disco, o músico londrino transporta para dentro de estúdio o mesmo som referencial que marca as canções de diferentes nomes do coletivo/selo britânico PC Music, do qual é um dos principais articuladores. São vozes carregadas de efeitos, o uso estilizado de referências eletrônicas e a constante perversão do pop tradicional, conceito que tem sido aprimorado pela própria cantora desde o amadurecimento criativo do Chairlift, em Something (2012).

Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade em Door. Marcada pela riqueza das texturas eletrônicas, vozes sobrepostas e uso controlado das batidas, a canção ganha forma aos poucos, como se indicasse a direção seguida pela cantora no restante da obra. Um lento desvendar de ideias e experiências sentimentais, cuidado que vai da construção dos arranjos ao uso confessional versos (“Estava esperando o arrependimento me atingir / Algum tipo de acerto de contas / Eu esperei pela queda, porque ultimamente / O yang vem junto com o yin“). Instantes em que Polachek parece testar os limites da própria voz, como na atmosférica Insomnia, ou simplesmente brincar com o criativo cruzamento de referências, marca de músicas como Look at Me Now e Parachute, canções que parecem saídas de algum disco do Cocteau Twins.

Entretanto, para além de uma obra tecnicamente apurada, sobrevive na força dos sentimentos compartilhados pela artista a real beleza de Pang. “Apenas uma polegada de distância de viver uma vida de sonhos / A única coisa que separa você e eu hoje à noite / É um oceano de lágrimas“, confessa em Ocean of Tears, canção que sintetiza a profunda entrega emocional da cantora. São versos consumidos pela melancolia do eu lírico, como um regresso ao material entregue em Crying In Public e demais composições dolorosas do Chairlift. Mesmo quando prova de uma sonoridade conceitualmente acessível, como na já citada So Hot You’re Hurting My Feelings, Polachek em nenhum momento oculta a forte vulnerabilidade explícita nos versos. “Estou em uma festa, eles estão tocando nossa música / Eu choro na pista de dança, é tão embaraçoso / Não me envie fotos, você está piorando / Porque você é tão gostoso que está machucando meus sentimentos“, canta enquanto guitarras e batidas quentes convidam o ouvinte a dançar, lembrando a mesma atmosfera de Days Are Gone (2013), estreia do HAIM.

Misto de sequência e fina desconstrução do material entregue nos últimos anos, Pang revela a imagem de uma artista que sabe exatamente que direção seguir dentro de estúdio. Entre composições que refletem a capacidade de cantora em dialogar com uma parcela maior do público, caso de So Hot You’re Hurting My Feelings, I Give Up e a próprio faixa-título do disco, músicas como Door e Ocean of Tears indicam o oposto, revelando um maior comprometimento estético por parte da compositora. São três ou mais décadas de referências que se articulam de forma tão particular quanto naturalmente íntimas de sua fonte original, proposta que faz da estreia de Polachek em carreira solo uma obra maior a cada nova audição.



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