"Sermão"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Indie Pop, Pop Rock, MPB
Para quem gosta de: Marcelo Jeneci e Silva
Ouça: Cola Comigo e Uma Flecha Para o Futuro
Nota: 5.5

Crítica | Castello Branco: “Sermão”

Em tempos de caos político, conflitos sentimentais e o inevitável distanciamento entre os indivíduos, Sermão (2019, Independente) nasce como um refúgio. Último registro da trilogia iniciada por Castello Branco em Serviço (2013), o sucessor do minimalista Sintoma (2017) mostra o esforço do cantor e compositor carioca em tratar de cada composição como um componente de acolhimento para o ouvinte. São versos simples, curtos, porém, sempre radiantes, estrutura que se reflete tão logo o álbum tem início, em No Mires Atrás (“Não é nenhuma mágica / É preciso saber prosseguir“), e segue até a faixa de encerramento do disco, em Uma Flecha Para o Futuro (“E no medo / Nada triunfa / Só o amor“).

Com produção assinada pelo mineiro Ruben di Souza (Milton Nascimento, Beto Guedes), o trabalho de 11 faixas e pouco mais de 40 minutos de duração segue em uma estrutura crescente, por vezes festiva. Canções montadas a partir de arranjos acústicos, porém, completas pela inserção de sintetizadores, vozes em coro e a percussão sempre destacada, como uma parcial fuga do material entregue no disco anterior. Frações instrumentais que servem de alicerce para a poesia ensolarada do compositor carioca, base para a formação de músicas como Geral Importa. “Estou aqui pra qualquer porra / À beira do abismo / Minha nossa senhora / Geral importa“, canta, apontando o caminho seguido no restante da obra.

O mesmo direcionamento acaba se refletindo em Powerful, canção de versos bilíngues, como uma tentativa clara do músico em ampliar os limites da própria obra. “Eu posso lhe provar / Que o amor não compete, guia / Considere um presente meu, a real / Mas só acredite sendo … I told you, my friend / That I can see your soul / Não te apavora / É que o agora / Powerful“, celebra. Mais à frente, em Cola Comigo, a mesma leveza, porém, partindo de um direcionamento romântico, conceito também explícito em faixas como De Pouquinho em Pouquinho e Juntos Com Certeza. “A coisa tá feia, mas eu enxergo lindo / Se o medo apertar, cola comigo“, segue em tom esperançoso, como um reforço à estrutura temática que rege o disco.

Se por um lado esse lirismo gracioso parece envolver e confortar o ouvinte logo nos primeiros minutos do registro, por outro, não há como ignorar forte aspecto monotemático que orienta a composição do álbum. Falta contraste ao trabalho de Castello Branco, como se tudo girasse em torno de um reduzido conjunto de ideias, sempre escapistas, tornando a experiência do ouvinte repetitiva, principalmente na segunda metade do disco, quando tudo parece previamente indicado pela poesia sorridente do cantor. A própria escolha das palavras, como no apontamento didático de “você, você, você, você, você…“, na já citada Geral Importa, por vezes ultrapassa o limite do acolhimento para esbarrar em um conteúdo de lirismo raso, íntimo da literatura de autoajuda.

Mesmo a base instrumental do disco replica uma série de conceitos originalmente testados durante o lançamento de Serviço. Falta novidade ao trabalho, vide o uso de referências eletrônicas e experimentações com a voz sutilmente detalhados no álbum anterior. Tudo soa como uma tentativa, talvez involuntária, do artista em replicar a mesma atmosfera detalhada em músicas como Crer-Sendo, Necessidade e todo o fino repertório entregue há seis anos. De fato, são poucos os momentos em que o artista carioca tende ao novo, como na derradeira Uma Flecha Para o Futuro, canção de atmosfera densa, uso instrumental da voz e versos fortes, como uma fuga do restante da obra – “Se o seu suor / Foi gasto / Com um erro / Não foi erro / Nem foi gasto“.

Pontuado por instantes de breve acerto, Sermão naturalmente cumpre a função de encerrar a trilogia iniciada por Castello Branco, porém, pouco avança criativamente, dando voltas em torno de um limitado universo conceitual. Falta ao registro a mesma incerteza e evidente toque de provocação detalhado em músicas como As Minhas Mães, Assuma e a misteriosa, ainda que instrumental, Anu. Tudo parece tratado de forma previsível, cômoda, como se as palavras eclodissem na cabeça do ouvinte antes mesmo de serem cantadas pelo artista. Um fuga breve, como um respiro aliviado para o momento difícil em que vivemos, mas não espere nada além disso.



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