"Charli"

Ano: 2019
Selo: Asylum / Atlantic
Gênero: Pop, R&B, Dance
Para quem gosta de: SOPHIE e Carly Rae Jepsen
Ouça: Official, Gone, Warm e Thoughts
Nota: 8.0

Crítica | Charli XCX: “Charli”

Em 2013, quando deu vida ao primeiro álbum de estúdio da carreira, True Romance, Charli XCX parecia simplesmente seguir a trilha de outros representantes recentes da música pop. Do uso de referências e elementos resgatados da década de 1980, logo na inaugural Nuclear Seasons, passando pela força das batidas e sintetizadores, em Stay Away, You (Ha Ha Ha) e Set Me Free (Feel My Pain), havia um claro desejo da cantora e compositora britânica em construir a própria identidade musical, porém, mantendo firme o diálogo criativo com Icona Pop, Sky Ferreira e demais artistas que também tiveram seus primeiros trabalhos lançados no mesmo período.

Satisfatório perceber nas canções de Charli (2019, Asylum / Atlantic), terceiro e mais recente álbum de estúdio da artista inglesa, uma completa desconstrução de tudo aquilo que a cantora havia experimentado em início de carreira. Partindo de um lento processo de reposicionamento estético que teve início no colaborativo Vroom Vroom (2016), obra que se abre para a interferência de SOPHIE, A. G. Cook e demais representantes do coletivo PC Music, Charli foi aos poucos transportando o próprio trabalho para um novo território criativo, mudança reforçada durante o lançamento do excelente POP 2 (2017). São ruídos eletrônicos, distorções e vozes metalizadas e pervertem o pop tradicional em prol de um som puramente provocativo, torto.

Entretanto, para além da simples massa de ruídos ou do famigerado som de uma “impressora engasgando“, sobrevive no presente álbum um exercício de profunda entrega sentimental e amadurecimento poético por parte da artista “Você sabe as coisas que me fazem sorrir … As coisas que eu digo quando você não quer ouvir / Coisas que você diz quando tomo decisões ruins / Coisas que fazemos na pia da minha cozinha / Eu lembro do nosso primeiro encontro / Sem chocolate e sem buquê / Mas do jeito que você me beijou“, canta em Official, composição que reflete a completa vulnerabilidade de Charli XCX, refinamento evidente durante toda a formação do trabalho.

Perdi tudo? Eu estraguei tudo? / Meus amigos são realmente amigos agora ou estão longe? / Sobre as drogas em um bar, eu tomei todas / Não consigo parar de pensar em você“, desaba em Thoughts, composição em que discute o próprio isolamento em um cenário de relações artificiais e pessoas que emulam falsos interesses. O mesmo direcionamento temático acaba se refletindo em Gone, bem-sucedida colaboração com Christine and The Queens, porém, em uma estrutura menos contemplativa e, naturalmente, raivosa. “Eu me sinto tão instável, odeio essas pessoas / Como elas fazem com que eu me sinta ultimamente / Elas estão me deixando estranha“, canta enquanto batidas e sintetizadores se projetam de forma crescente, convidando o ouvinte a dançar

Observado de maneira atenta, Charli é um trabalho inteiro sobre isso: canções alimentadas por crises existenciais, medos e conflitos amorosos, porém, trabalhadas de forma acessível, como se pensadas para capturar a atenção do ouvinte logo nos primeiros minutos. Com base nessa estrutura, a cantora e seus parceiros de produção, A. G. Cook, Ö e Lotus IV, utilizam do trabalho como um espaço aberto à colaboração com diferentes representantes do pop contemporâneo. São nomes como Lizzo, em Blame It On Your Love; Clairo e Yaeji, na curiosa February 2017; Kim Petras e Tommy Cash, no som caótico de Click e Troye Sivan, na dobradinha composta por 1999 e 2099. Mesmo músicas já conhecidas, como Warm, colaboração com as garotas do Haim, e Cross You Out, encontro com Sky Ferreira, ganham outro significado dentro do conceito estilístico da obra, crescendo para além da impressão inicial.

Erroneamente rotulado como um disco de pop futurista, Charli talvez seja uma dos registros que melhor dialoga com a música pop em sua fase mais recente. Entre canções ancoradas em relacionamentos conturbados e versos consumidos pela ansiedade, medo e depressão, Charli XCX vai da montagem frenética do k-pop ao exagero estético da PC Music em uma linguagem particular. Instantes de evidente vulnerabilidade que refletem o que há de mais sensível na obra de cantora, mas que em nenhum momento deixam de dialogar com o ouvinte, efeito dos temas universais que servem de sustento aos versos detalhados pela cantora até o último instante da obra.