"Beginners"

Ano: 2020
Selo: ANTI-
Gênero: Indie Folk, Folk Rock
Para quem gosta de: Phoebe Bridgers e Sufjan Stevens
Ouça: Northsiders e Lose This Number
Nota: 8.0

Crítica | Christian Lee Hutson: “Beginners”

Beginners (2020, ANTI-) é um trabalho que você provavelmente já ouviu uma dezena de vezes. São canções marcadas pelo minimalismo dos arranjos, passeios pelo cancioneiro norte-americano e o uso sempre delicado da voz, proposta que tanto evoca a obra de veteranos, como Elliott Smith e Sufjan Stevens, como nomes recentes aos moldes de Angelo De Augustine e Lucy Dacus. Entretanto, o que torna o novo álbum de Christian Lee Hutson, colaborador frequente de Phoebe Bridgers, tão interessante, são justamente as histórias narradas pelo artista até a derradeira Single for the Summer.

20 de outubro / Pelos de cachorro, um cobertor em seu ombro / Lendo o menu com sotaque / Tentando fazer você rir”, canta em meio a versos descritivos que embalam a introdutória faixa de abertura e se completam pelo refrão melancólico: “não lembro de envelhecer, mas estou desacelerando / Não sei se vou sentir sua falta para onde estou indo agora“. Fragmentos sentimentais que se confundem em meio a memórias da infância e início da vida adulta. Um resgate particular de tudo aquilo que o músico tem vivido desde o último álbum de estúdio, Yeah Okay, I Know (2015), porém, em um sentido cada vez mais amplo, como se Hutson fizesse das próprias emoções um componente de diálogo com o ouvinte.

Não por acaso, o músico convidou Bridgers a assumir a produção do disco. Especialista em narrar boas histórias, conceito reforçado em obras como Stranger in the Alps (2017) e no colaborativo Better Oblivion Community Center (2019), a musicista transforma a voz de Hutson no componente central do trabalho. São captações claras, por vezes duplicadas, estrutura que naturalmente valoriza cada verso detalhado pelo artista. Exemplo disso está em algumas das principais faixas do álbum, caso de Lose This Number e Northsiders, canções em que os versos detalhados pelo cantor ganham forma aos poucos, orientando a experiência do ouvinte.

Nós éramos tão pretensiosos / Não confiávamos no governo / Dissemos que éramos comunistas / E pensei que nós o inventamos / Apologistas de Morrissey / Psicólogos amadores / Monogamistas em série“, canta na já citada Northsiders. São pouco menos de quatro minutos em que Hutson convida o ouvinte a reviver memórias da própria adolescência. Instantes em que o músico resgata a imagem de um jovem deslocado, seus amores e recordações mais honestas, estrutura que passa por paisagens descritivas e momentos de profunda entrega sentimental, como um avanço claro em relação ao material entregue no disco anterior.

Entretanto, mesmo nesse cenário marcado pela economia dos arranjos e poemas sempre cristalinas, Hutson e Bridgers em nenhum momento se distanciam de faixas turbulentas, maiores a cada nova audição. Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade em toda a sequência de músicas que abastecem o eixo final do disco. Canções como Get the Old Band Back Together, Keep You Down e Single for the Summer, em que o artista segue em uma estrutura crescente, detalhando incontáveis camadas de guitarras, metais e vozes complementares, como uma fuga do som minimalista, quase anêmico, que embala a primeira metade do registro.

É como se tudo fosse pensado como uma jornada. Frações poéticas em que Hutson se apresenta ao ouvinte, conduz a experiência do público em direção ao passado e, a partir desse momento, trata das próprias emoções de forma confessional, orientando a construção dos versos até a música de encerramento do trabalho. Uma narrativa visual que parece pensada para se formar na cabeça do espectador, por vezes confundido pelas memórias e vivências reais do artista. Instantes em que somos convidados a reviver nossas próprias inquietações, medos e recordações mais nostálgicas.