"Cosmo"

Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Indie, MPB, Pop Rock
Para quem gosta de: Rubel e Marcelo Camelo
Ouça: Falso Azul e Some Lazy Days
Nota: 7.5

Crítica | Cícero: “Cosmo”

O infinito emoldurado na capa de Cosmo (2020, Independente), quinto e mais recente álbum de estúdio de Cícero Rosa Lins, funciona como um indicativo claro do material entregue pelo cantor e compositor carioca no decorrer da obra. Instantes em que o artista responsável pela composição de registros como Canções de Apartamento (201), Sábado (2013) e A Praia (2015) condensa a imensidão dos sentimentos em um curto bloco de experiências pessoais. Canções que celebram a alegria dos dias, o medo da solidão e a inevitabilidade da passagem do tempo, como uma extensão particular do repertório apresentado no antecessor Cícero & Albatroz (2017).

Não por acaso, o músico carioca fez da atmosférica Falso Azul a faixa de abertura do disco. “Céu não há / Hoje foi embora / Tem, mas não tá ou não quer aparecer / Alto lá / Onde ninguém mora / Longe daqui“, canta enquanto sintetizadores climáticos e as vozes complementares de Beatriz Pessoa, Mari Milani e Leonor Arnaut correm ao fundo da canção, sem pressa. Um lento desvendar de ideias e inquietações pessoais, proposta que orienta com naturalidade a experiência do ouvinte até o último instante da obra.

São faixas marcadas pelo reducionismo dos elementos, o uso comedido da voz e o convite a se perder pelas memórias e experiências pessoais detalhadas pelo artista. “É, são dias estranhos / Também não sei onde vai dar“, desaba em Miradouro Nova Esperança, música que nasce como um ponto de equilíbrio entre a doce melancolia que toma conta de Canções de Apartamento e a angústia explícita nos versos de Sábado. Frações poéticas regidas pelo permanente desejo de mudança, porém, ainda ancoradas em um universo consumido pela saudade, conceito que se reflete em alguns dos momentos mais sensíveis do trabalho, como em A Chuva. “Ela foi embora / Quis sofrer, não consegui / Não foi agora / Que ela se perdeu de mim“, canta.

Claro que essa propositada economia não interfere na produção de faixas marcadas pelo aspecto radiante dos arranjos e vozes. É o caso de Some Lazy Days, logo na abertura do disco. “Mulher, eu vou fazer um filme / Vai se chamar ‘Some Lazy Days’ / Nele não vai ter enchente / A gente vai ficar de vez“, canta em meio a guitarras ensolaradas, sempre convidativas, como uma extensão do material entregue em A Praia. O mesmo cuidado acaba se refletindo mais à frente, no minimalismo precioso que toma conta de Esquinas, canção que evoca Djavan no movimento das guitarras, ou mesmo nos assobios e melodias sobrepostas de Marinheiro Astronauta, quinta composição do álbum.

De fato, Cosmo é um trabalho marcado em essência pelos momentos. Instantes em que Cícero flutua em meio a memórias de um passado ainda recente, como no sambinha de O Que Ficou, ou mesmo faixas que se abrem de forma a revelar delicadas paisagens instrumentais, estímulo para a atmosférica Banzo. Um precioso cruzamento de informações que preserva a poesia triste que se apodera dos antigos trabalhos do cantor, porém, aporta em novos territórios criativos, proposta que força uma audição atenta por parte do ouvinte, convidado a se perder por entre as brechas do registro.

Concebido em meio a sessões gravadas entre Brasil e Portugal, Cosmo nasce como um respiro leve em um cenário marcado pelo caos. Da construção dos arranjos, sussurrados em meio a ambientações eletrônicas, batidas e guitarras pontuais, passando pelo evidente refinamento na composição dos versos, cada faixa do disco assume uma função específica, como pequenas crônicas musicadas, personagens e histórias que se entrelaçam sem ordem aparente. Trata-se de um registro das experiências pessoais e recordações do próprio artista, como uma interpretação delicada de tudo aquilo que o músico carioca tem vivido desde o último trabalho de estúdio.



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