"Moon Trip Radio"

Ano: 2019
Selo: Columbia / Sony
Gênero: Hip-Hop Instrumental, Eletrônica, Experimental
Para quem gosta de: Four Tet e Oneohtrix Point Never
Ouça: Lyre, Cupidwing e Rune
Nota: 8.0

Crítica | Clams Casino: “Moon Trip Radio”

Seja como produtor de nomes como Lil B, A$AP Rocky e Vince Staples, ou na realização de registros em carreira solo, como o delicado Rainforest (2011) e a importante série Instrumentals, a grande beleza da obra de Michael Volpe como Clams Casino sempre esteve na forma como o artista de Nova Jersey parecia perverter os clichês e fórmulas prontas do Hip-Hop em prol de um resultado puramente experimental, sempre marcado pelo uso de texturas e incontáveis camadas instrumentais. Talvez, por isso, 32 Levels (2016), primeiro álbum de estúdio do artista, foi recepcionado de forma bastante fria pelo público e crítica, efeito da evidente plasticidade que marca o projeto completo pela presença de nomes como Kelela e Samuel T. Herring.

Satisfatório perceber nas canções de Moon Trip Radio (2019, Columbia / Sony), segundo e mais recente álbum de estúdio de Clams Casino, uma propositada fuga do material entregue há três anos. Do uso fragmentado das batidas à inserção de vozes tratadas como instrumentos, cada elemento do disco exige uma audição atenta por parte do ouvinte. É como se o produtor norte-americano brincasse com os instantes, colidindo incontáveis fórmulas e direcionamentos conceituais de forma sempre específica, evidenciando um controle claro sobre a própria obra.

E isso se percebe logo nos primeiros minutos do trabalho, na introdutória Rune. São pouco mais de três minutos em que Volpe parece envolver o ouvinte em uma trama misteriosa, detalhando cada componente da faixa em uma medida própria de tempo. São ruídos submersos, a modulação eletrônica que converte palmas em batidas e, principalmente, a voz sintetizada que se espalha por entre as brechas da canção, como um parcial regresso criativo ao mesmo ambiente detalhado em Rainforest. Um indicativo claro de tudo aquilo que orienta a experiência do público até a derradeira faixa-título do disco.

Dos poucos momentos em que perverte essa estrutura, Clams Casino investe na produção de um material menos atmosférico, porém, sempre detalhista. É o caso da colorida Cupidwing, quarta faixa do disco. Da construção das batidas à delicadeza na inserção dos sintetizadores, tudo soa como uma fuga do ambiente soturno de Moon Trip Radio, estrutura que naturalmente aponta para o minimalismo de nomes como Boards of Canada e Four Tet. A própria In a Mirror, com seus pianos econômicos e ruídos ocasionais nasce como um refúgio no interior da obra, lembrando o trabalho de Aphex Twin em preciosidades como Avril 14th e Aisatana [102].

Entretanto, é justamente quando investe na produção de um material puramente irregular, que Clams Casino de fato chama a atenção do ouvinte. Perfeita representação desse resultado está na utilização de sons animalescos, texturas e quebras rítmicas de Lyre, canção que ainda chega acompanhada de guitarras ocasionais, como um diálogo de Volpe com a obra do austríaco Christian Fennesz. Na dobradinha composta por Healing e NSX, um parcial regresso ao mesmo território conceitual detalhado na série Instrumentals, como se o produtor criasse pequenas brechas para a inserção de rimas imaginárias.

Partindo desse direcionamento mutável, Volpe entrega ao público uma obra que tanto preserva a própria identidade criativa, como se permite provar de novas possibilidades e ritmos, mudando de direção a todo instante. São recortes, batidas e melodias sujas que refletem o completo esmero do artista durante toda a execução do trabalho. Canções que se projetam em um exercício claro de perversão do óbvio, como se o produtor norte-americano fosse da entrega de atos monumentais, conceito evidente em músicas como Rune e NSX, à produção de pequenos respiros melódicos, vide Cupidwing e In a Mirror, indicativo da completa versatilidade que rege o disco.



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