"Atrópico"

Ano: 2019
Selo: La Petite Chambre
Gênero: Pós-Rock, Experimental, Jazz
Para quem gosta de: Tortoise, Hurtmold e Mahmed
Ouça: Ensinando a Ser Sombra e Atrópico
Nota: 8.8

Crítica | Constantina: “Atrópico”

Ouvir o som produzido pelos mineiros do Constantina é uma experiência sempre gratificante. Seja no direcionamento incerto que embala as canções do autointitulado debute, ou nas experimentações eletrônicas que invadem o temático Haveno (2011), cada registro entregue pelo coletivo belo-horizontino reflete o esmero e profundo comprometimento estético de seus realizadores. Entretanto, o que mais surpreende é pensar que mesmo após tantos lançamentos e mais de uma década de atuação, o grupo composto por André Veloso (baixo), Daniel Nunes (bateria), Bruno Nunes (guitarra), Viquitor Burgos (clarone e eletrônicos) e Lucas Morais (trompete) continua a se reinventar dentro de estúdio, investindo na produção em um material tão rico e provocativo quanto em início de carreira.

E isso se reflete com naturalidade a cada movimento do recente Atrópico (2019, La Petite Chambre). Primeiro álbum de estúdio do quinteto mineiro desde o atmosférico Pelicano (2014), o registro de cinco faixas preserva a essência minimalista dos antigos trabalhos da banda, porém, chama a atenção pelos detalhes, ruídos e texturas ocasionais que se escondem por entre as brechas da obra. São delicados paisagens instrumentais, estrutura que naturalmente força uma audição atenta por parte do ouvinte, porém, encanta pela forma como o grupo perverte possíveis traços de morosidade em prol de um registro essencialmente dinâmico.

Perfeita representação desse cuidado na composição dos arranjos se faz evidente logo nos primeiros minutos do álbum, na extensa O Rio Corre Para o mar (Contracorrente). São pouco mais de 13 minutos em que o grupo parece brincar com os instantes, detalhando incontáveis camadas instrumentais, respiros e atos grandiosos, como uma natural continuação do material entregue no disco anterior. Do uso cristalino da percussão, sempre precisa, passando pelo clarone pontual de Burgos, todos os elementos parecem trabalhados de forma deliciosamente calculada, como se cada componente exercesse uma função específica para o fortalecimento da obra.

A mesma riqueza na composição dos arranjos, porém, partindo de um novo direcionamento estético, se faz evidente na estrutura grandiosa que marca a faixa-título do disco. Do uso cíclico dos metais, passando pelo corte brusco das guitarras ao som orgânico de chocalhos, cada elemento da canção se revela de forma a capturar a atenção o ouvinte. É como se diferentes obras fossem recortadas e costuradas dentro de um mesmo universo conceitual, estrutura que vai da calmaria ao caos, da celebração ao parcial recolhimento. Frações instrumentais que refletem o completo refinamento do quinteto belo-horizontino, como um extensão natural de tudo aquilo que a banda tem produzido desde o início da carreira.

Mesmo imerso nesse universo de pequenos detalhes, interessante perceber em Ensinando a Ser Sombra, quarta faixa do disco, um refinamento ainda maior em relação ao restante do álbum. Enquanto a abertura da canção é marcada pela inserção de sintetizadores e temas eletrônicos, lembrando parte do repertório apresentado em Haveno, à medida que a música avança, incontáveis camadas instrumentais parecem ampliar os limites do som produzido pela banda. Exemplo disso está no uso destacado dos metais e inusitado complemento das vozes, componente raramente utilizado pelo grupo. Pouco mais de dez minutos em que o quinteto parece brincar com as possibilidades dentro de estúdio.

Inaugurado e completo pelas duas diferentes versões de Frida, com pouco mais de um minuto de duração cada, Atrópico vai da euforia ao parcial silenciamento em uma criativa colisão de ideias. São fragmentos instrumentais que passeiam por diferentes fases na carreira do coletivo mineiro, como se velhas ideias fossem recicladas e tingidas pela novidade. Canções que vão do jazz ao experimentalismo eletrônico, de abstrações minimalistas ao improviso catártico sem necessariamente se apegar a um gênero ou conceito específico, versatilidade que orienta a experiência do ouvinte até o último instante do trabalho.



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