"Cows on Hourglass Pond"

Ano: 2019
Selo: Domino
Gênero: Experimental, Pop Psicodélico
Para quem gosta de: Panda Bear e Animal Collective
Ouça: HORS_ e Saturdays (Again)
Nota: 7.6

Crítica | “Cows on Hourglass Pond”, Avey Tare

Se por um lado o trabalho de David Portner no Animal Collective apresenta evidentes sinais de cansaço, vide os medianos Painting With (2016) e Tangerine Reef (2018), em carreira solo, o cantor e compositor norte-americano continua a brincar com a própria identidade criativa. Prova disso está em toda a sequência de obras que vem sendo produzidas pelo músico nos últimos anos, caso de Down There (2010) e Eucalyptus (2017). Composições que não apenas preservam a essência delirante do artista, como continuam a jogar com a percepção do ouvinte.

Síntese desse permanente desejo de Portner em se reinventar dentro de estúdio ecoa com naturalidade nas canções de Cows on Hourglass Pond (2019, Domino). Terceiro álbum de estúdio do músico em carreira solo, o trabalho concebido durante a turnê do antecessor Eucalyptus reserva ao público algumas das canções mais curiosas e estranhamente sedutoras do Avey Tare. São variações instrumentais que vão do pop psicodélico ao folk, estrutura que naturalmente distancia o artista de uma obra previsível.

Marcado pela inserção de ruídos animalescos, mugidos e o relinchar de cavalos, Cows on Hourglass Pond transporta o ouvinte para um ambiente rural, porém, preservando a essência lisérgica dos antigos trabalhos de Portner. Exemplo disso está na delirante Chilly Blue, música que parte de uma estrutura orgânica para mergulhar em um ambiente de emanações cósmicas. A mesma estrutura contrastada acaba se refletindo em Saturdays (Again), composição de base acústica que aponta para um universo completamente abstrato, conceito que faz lembrar a boa fase do Radiohead, em Kid A (2000).

Em HORS_, faixa de encerramento do disco, camadas instrumentais que refletem o completo esmero do artista. São pouco menos de cinco minutos em que o músico norte-americano não apenas resgata o pop lisérgico incorporado pelo Animal Collective, vide obras como Strawberry Jam (2007) e Merriweather Post Pavilion (2009), como amplia parte expressiva do som concebido para o presente trabalho. Sobreposições etéreas, batidas e vozes que se articulam em uma estrutura deliciosamente inexata.

Claro que esse forte caráter experimental não distancia Portner de faixas minimamente acessíveis. É o caso de Remember Mayan, música que poderia facilmente ser encontrada em algum disco do Tame Impala ou Unknown Mortal Orchestra. Em Our Little Chapter, a clara tentativa do músico em dialogar com uma parcela maior do público, porém, preservando a estrutura delirante que vem sendo aprimorada desde a sequência de abertura do disco, com What’s the Goodside? e Eyes on Eyes.

Entre instantes de forte corrupção estética, como em K.C. Yours, e faixas que parecem dialogar com o trabalho assinado em parceria com os demais parceiros do Animal Collective, vide Taken Boy, Avey Tare entrega ao público uma obra conceitualmente mutável, mágica. Do momento em que tem início, em What’s the Goodside?, até alcançar a derradeira HORS_, perceba como o artista norte-americano muda de direção a todo instante, fluidez que se reflete não apenas nas composições do disco, mas, principalmente, no projeto gráfico e registros visuais que servem de complemento à obra.