"Crux"

Ano: 2019
Selo: Balaclava Records
Gênero: Indie, Dream Pop, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Quarto Negro e Terno Rei
Ouça: A Alegria dos Dias, Rebeca e Reflexo Turvo
Nota: 8.3

Crítica | “Crux”, Apeles

Eduardo Praça passou grande parte da presente década transformando as próprias desilusões em música. Um delicado exercício criativo que se reflete na produção de obras como Desconocidos (2011) e Amor Violento (2015), dois únicos álbuns de estúdio da extinta Quarto Negro, mas que ajudam a traduzir a forma como sentimentos, memórias e experiências particulares se entrelaçam de forma sempre tocante na voz do músico paulistano. Um permanente fluxo emocional que se completa pela capacidade do cantor e compositor em transitar por diferentes campos da música, estrutura que ganha ainda mais destaque no segundo registro de inéditas do artista sob o título de Apeles, o sombrio Crux (2019, Balaclava Records).

Sequência ao tímido Rio do Tempo (2017), obra produzida por Leonardo Marques (Moons, Arthur Melo) e completa pela presença de músicos como Gustavo Teixeira (Nuven), Hélio Flanders (Vanguart) e Jennifer Souza (Transmissor), o trabalho de oito faixas encontra na lenta composição dos elementos a passagem para um universo marcado em essência pelos detalhes. São texturas atmosféricas, vozes trabalhadas como instrumentos e captações aleatórias que vão de um simples cantarolar, no encerramento da faixa-título, ao uso de fragmentos da UVB-76, misteriosa estação russa que ecoa na acústica Rebeca.

Não por acaso, Praça escolheu a extensa Deságua como faixa de abertura do disco. Dividida em duas porções, a canção parte de uma abertura climática, lembrando o Arcade Fire em Neon Bible (2007), para um território puramente psicodélico e torto, estrutura que ganha ainda mais destaque no decorrer da obra. São pianos, batidas e guitarras que se espalham em uma medida própria de tempo, sem pressa, cercando a voz enevoada do cantor. Camadas instrumentais e poéticas que ora apontam para os antigos trabalhos da Quarto Negro, ora mergulham no pop sombrio dos anos 1980, proposta evidente na derradeira Torre dos Preteridos, com seus sintetizadores e melodias empoeiradas que fazem lembrar o clássico Desintegration (1989), obra-prima do The Cure.

Mesmo quando acelera, como em A Alegria dos Dias Dorme no Calor dos Teus Braços, fica evidente o cuidado de Praça na composição de cada elemento. “E é uma amarra irreversível, meu bem / Culpa de um amor carnal / Gosto desse vai e vem / Teu toque me levanta ao céu“, cresce a letra da canção enquanto guitarras minuciosa e batidas rápidas convidam o ouvinte a dançar, mergulhando na música disco de forma soturna. O mesmo resultado acaba se refletindo em Reflexo Turvo, canção de essência ruidosa que vai do trabalho de David Bowie, em “Heroes” (1977), à boa fase de grupos como Pixies e R.E.M. na segunda metade da década de 1980.

Interessante perceber no parcial reducionismo de Rebeca, sétima composição do disco, a passagem para um material ainda mais tocante e sensível. Concebida em meio a violões e vozes submersas, por vezes indecifráveis, a canção reflete a capacidade de Praça em transformar os próprios sentimentos em um precioso elemento de diálogo com o ouvinte, como o olhar triste para um passado ainda recente. “E você vai se comover / Quando menos esperar / E você vai se perguntar / Como é que eu fiz pra superar“, canta.

Passo seguro em relação ao material entregue em Rio do Tempo, Crux se revela ao público como uma obra que exige ser desvendada. Da poesia metafórica e camadas instrumentais que se espalham ao fundo de Pássaro Nu, passando pela crueza de Reflexo Turvo à lisergia romântica de Pele, evidente é o esforço do músico paulistano em entregar ao público um registro que parece maior e mais tocante a cada nova audição. Ainda que parte expressiva dos versos se perca em meio ao exagero no uso de efeitos e manipulações sintéticas, uma vez dentro do trabalho, difícil escapar do delirante labirinto sentimental arquitetado por Praça.