"Culto da Brisa"

Ano: 2019
Selo: Spring Toast Records
Gênero: Dream Pop, Folk Psicodélico
Para quem gosta de: Boogarins, Fleet Foxes e Milton Nascimento
Ouça: Dono da Razão e Vai Nascer
Nota: 8.0

Crítica | “Culto da Brisa”, Jasmim

Mergulhar nas canções de Culto da Brisa (2019, Spring Toast Records) é como se perder em um território de formas enevoadas, mutáveis e mágicas. Primeiro álbum de estúdio do cantor e compositor português Martim Braz Teixeira como Jasmim, o registro de emanações psicodélicas dança pelo tempo em um curioso resgate sensorial que atravessa as décadas de 1960 e 1970. São paisagens instrumentais e poéticas que encontram no completo refinamento das melodias a passagem para um ambiente totalmente onírico, como se gerado a partir de experiências delirantes que escapam da mente do próprio compositor.

Sequência ao material entregue no também delirante Oitavo Mar (2017), registro de cinco faixas em que Teixeira estabelece uma série de conceitos e apontamentos criativos, o presente álbum encontra na relação com diferentes nomes da cena lisboeta a base para um registro não apenas maior, como musicalmente complexo e inventivo. São nomes como Violeta (flauta transversal, sintetizadores e voz), Pedro Morrison (bateria), Bia Diniz (baixo e voz) e um time seleto de instrumentistas que surgem e desaparecem durante toda a execução da obra.

Exemplo disso está na lisergia flutuante de Vai Nascer, segunda faixa do disco. Concebida em uma medida própria de tempo, a canção vai do som psicodélico que embala a obra de brasileiros como Milton Nascimento, no Clube da Esquina (1972), e chega até o presente cenário em um curioso diálogo com a obra de Fleet Foxes e demais representantes da cena norte-americana. Pouco mais de cinco minutos em que violões e vozes carregados de efeitos se abrem para a inserção de sintetizadores cósmicos, guitarras e batidas cuidadosamente encaixadas, estímulo para a poesia ensolarada da composição — “Deixar a terra respirar / Vais ver que amanhã / Tens uma nova razão pra acordar“.

O mesmo refinamento estético ecoa com naturalidade na faixa seguinte do disco, Dono da Razão. Entre camadas eletrônicas que partilham da mesma leveza incorporada por nomes como Boogarins, vozes ecoadas criam pequenas brechas para a produção de um som deliciosamente orgânico, dominado pela flauta transversal de Violeta. Um colorido labirinto de ideias e sensações que convida o ouvinte a flutuar, como a passagem para um mundo de sonhos e pequenas manipulações instrumentais.

Concebido em meio a camadas e pequenas colagens instrumentais, Culto da Brisa faz de cada composição um registro precioso. Perceba como as canções do disco partem de uma base essencialmente contida, leve, para se transformar em um verdadeiro turbilhão criativo. Basta voltar os ouvidos para a curtinha Aqui, Agora, música que nasce em meio a variações acústicas, porém, se converte em um minucioso ato orquestral. São ambientações atmosféricas que revelam ao público um universo de pequenos detalhes, direcionamento explícito em músicas como Agosto e Mora.

Talvez exigente para os ouvintes mais apressados, Culto da Brisa força uma audição atenta, como se Teixeira e os parceiros de banda ocultassem pequenos detalhes durante toda a execução da obra. Síntese desse profundo comprometimento estético ecoa com naturalidade na faixa de encerramento do disco, Ouro, Prata e Jasmim. São pouco menos de seis minutos em que melodias etéreas encolhem e crescem a todo instantes, borbulhando incertezas e versos melancólicos que não apenas garantem o fechamento ideal ao trabalho, como convidam o ouvinte a revisitar todos os elementos que vem sendo apresentados desde os primeiros minutos da obra.