"Harlecore"

Ano: 2021
Selo: Mad Decent
Gênero: Eletrônica, Hyperpop, Eurodance
Para quem gosta de: A. G. Cook, Charli XCX e SOPHIE
Ouça: On a Mountain e Where Are You Now
Nota: 8.3

Crítica | Danny L Harle: “Harlecore”

Junto de A. G. Cook e SOPHIE, Danny L Harle foi um dos responsáveis por moldar a cara da música pop na última década. Conhecido pelas criações como colaborador de diferentes nomes da PC Music, o artista londrino passou os últimos anos se revezando em uma série de composições ao lado de Charli XCX, Rina Sawayama, Clairo e outros personagens importantes do gênero. São canções marcadas pelo caráter referencial dos temas, uso estilizado das vozes, sintetizadores e batidas que apontam para diferentes campos da produção eletrônica, proposta que ganha ainda mais destaque no material entregue em Harlecore (2021, Mad Decent), primeiro álbum de estúdio do produtor.

Conceitualmente dividido em quatro blocos específicos de canções, um para cada identidade adotada por Harle, o registro parte de uma abordagem própria do produtor britânico, porém, estabelece no curioso diálogo com um time seleto de colaboradores o principal componente criativo para o fortalecimento da obra. São personagens como DJ Mayhem, concebido em parceria com o também produtor Hudson Mohawke; MC Boing, ao lado do conterrâneo Lil Data, e DJ Ocean, pseudônimos em que estreita a relação com a cantora e compositora norte-americana Caroline Polachek, com quem tem colaborado em estúdio desde a entrega do elogiado Peng (2019).

Perfeita representação desse resultado pode ser percebida na sequência composta por Boing Beat, Interlocked e Ocean’s Theme, logo na abertura do disco. São pouco mais de sete minutos em que o produtor vai da sonoridade explosiva que dialoga com nomes como 100 gecs e Black Dresses ao toque referencial da eurodance e ambientações serenas que utilizam de temas puramente atmosféricos. É como se Harle apresentasse grande parte das regras que serão seguidas até a derradeira Ti Amo, encontro com MC Spirits, porém, pervertendo todo e qualquer traço de normalidade em meio a maquinações sintéticas e ruídos e que estão longe de garantir possíveis respostas.

Interessante notar que mesmo nesse espaço marcado pelas possibilidades e encontros com diferentes colaboradores, sobrevive nas criações assinadas individualmente pelo artista a passagem para alguns dos momentos mais notórios da obra. Utilizando do pseudônimo de DJ Danny, Harle diz a que veio logo nos primeiros minutos da obra, em Where Are You Now. Com vozes gravadas pela conterrânea NAO, a canção funciona como um aceno para a obra de veteranos como Gigi D’Agostino, Lasgo e Darude, crescendo na manipulação dos sintetizadores e batidas que vão de um canto a outro da produção eletrônica. Um linguagem bastante similar também pode ser percebida em Take My Heart Away, música que parece saída de algum disco do Aqua, e na crescente Do You Remember, faixa que aponta para a PC Music.

Nada que se compare ao material entregue em On A Mountain. Uma das primeiras composições do disco a serem apresentadas ao público, a faixa nasce como um acumulo de tudo aquilo que define a obra de Harle. Enquanto batidas vão do drum and bass ao hyperpop de maneira frenética, melodias cristalinas e camadas de sintetizadores servem de base para voz cuidadosa de Georgia Twinn, convidada a assumir os versos da canção. “Eu posso ver que seu coração está partido também / Então, apenas deite aqui em uma montanha, eu e você“, canta. É como se passado e presente da música pop fossem recortados e organizados em uma linguagem própria do artista.

Dividido entre momentos de doce nostalgia e composições que refletem a identidade criativa do produtor, Harlecore nasce como uma soma de tudo aquilo que Harle tem desenvolvido desde os primeiros registros autorais. São canções que atravessam as pistas, incorporam momentos de maior experimentação e curioso olhar para a música pop, porém, em nenhum momento excluem o ouvinte dessa equação. Das letras e melodias cantaroláveis ao uso das batidas, tudo parece pensado para atrair a atenção do público, mesmo que de forma desconcertante. É como se o artista alcançasse um ponto de equilíbrio entre o que há de mais estranho nas próprias criações e o material entregue por diferentes nomes da produção eletrônica nas últimas duas décadas.

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