"Dedicated"

Ano: 2019
Selo: 201, 604 / School Boy / Interscope
Gênero: Pop, Synthpop, Dance
Para quem gosta de: Charli XCX, Lorde e Robyn
Ouça: No Drug Like Me e Now That I Found You
Nota: 8.3

Crítica | “Dedicated”, Carly Rae Jepsen

Mesmo imersa em um universo de obras marcadas pelos excessos, tentativas frustradas da gravadora em emplacar um novo registro de sucesso, artistas, produtores e fórmulas que se repetem de forma tediosa, Carly Rae Jepsen decidiu seguir em uma medida própria de tempo, sem pressa. O resultado desse propositado isolamento criativo e busca declarada por novos parceiros e sonoridades fez com que a cantora e compositora canadense, antes sufocada pelo peso de sua composição mais conhecida, a pegajosa Call Me Maybe, mergulhasse na produção de um dos trabalhos mais influentes e cultuados da presente década, Emotion (2015).

Quarto anos após o lançamento do registro que trouxe preciosidades como Run Away with Me, Warm Blood e All That, Jepsen se divide entre o evidente desejo de preservar a própria essência criativa e a propositada ruptura estética, estímulo para o material entregue nas canções de Dedicated (201, 604 / School Boy / Interscope). Claramente inspirado pelo pop da década de 1970, o trabalho que utiliza de elementos da música disco, funk e synthpop parte de uma estrutura conceitualmente nostálgica para tingir com novidade cada fragmento poético da artista. Composições que apontam para a obra de veteranos como Donna Summer, ABBA e Bee Gees, porém, dentro de uma linguagem moderna, guiada pelo frescor dos elementos.

Não por acaso, Jepsen decidiu abrir o trabalho com o pop empoeirado de Julien. Da linha de baixo funkeada, passando pela composição das batidas, prontas para as pistas, basta uma rápida audição para que o ouvinte seja rapidamente transportado para o universo temático da obra. Um misto de passado e presente, estrutura que vem sendo aprimorada pela artista desde o último álbum de estúdio. A mesma atmosfera referencial acaba se refletindo em outros momentos do álbum, como Happy Not Knowing, no encontro com Electric Guest, em Feels Right, e, principalmente, na composição nostálgica de I’ll Be Your Girl, música dominada pela costura das guitarras e pequenas variações rítmicas.

Claro que essa busca da cantora por novas possibilidades não distancia o ouvinte do mesmo universo criativo detalhado Emotion. Exemplo disso está em Want You in My Room, bem-sucedida colaboração com Jack Antonoff que faz lembrar os trabalhos de Madonna e Patrick Leonard na segunda metade dos anos 1980. No minimalismo de No Drug Like Me, os mesmos sintetizadores e romantismo agridoce que abastece músicas como Warm Blood e Favorite Colour. Mesmo quando prova de uma sonoridade menos hermética, como em The Sound e no pop ensolarado de Now That I Found You, Jepsen em nenhum momento se distancia do núcleo da obra, garantindo ao público uma obra tão diversa quanto coesa.

Para além da criativa reciclagem de conceitos, interessante perceber em Dedicated a busca da cantora por novas possibilidades. Síntese dessa transformação ecoa com naturalidade em Everything He Needs, quinta faixa do disco. Entre versos resgatados de He Needs Me, música originalmente composta por Harry Nilsson para a trilha sonora de Popeye (1980), sintetizadores e vozes carregadas de efeito, Jepsen esbarra no mesmo universo criativo detalhado em Gossamer (2012), do Passion Pit. Um som descomplicado, leve, estrutura que faz lembrar de Cry Like a Ghost e demais criações de Michael Angelakos. Surgem ainda peças importantes, como Too Much e a derradeira Real Love, criações em que a artista canadense se distancia do restante da obra para provar de um pop comercialmente moldado para o grande público, mas não menos interessante.

Embora livre do efeito surpresa e naturalmente sufocado pela expectativa gerada após o lançamento de Emotion, Dedicated garante ao público tudo aquilo que Carly Rae Jepsen vem produzindo desde o crescimento artístico em Kiss (2012). Trata-se de uma obra guiada pela força dos sentimentos, confissões românticas e instantes de doce melancolia, como uma extensão natural do conjunto de ideias e versos confessionais detalhados em When I Needed You, Your Type e algumas das principais faixas apresentadas no álbum anterior. Composições que refletem a capacidade da artista em dialogar com uma parcela maior do público, porém, preservando a própria identidade.