"Flower of Devotion"

Ano: 2020
Selo: Fire Talk
Gênero: Indie Rock, Dream Pop, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Smith Westerns e Beach Fossils
Ouça: Loner, Desire e Flying
Nota: 8.5

Crítica | Dehd: “Flower of Devotion”

Talvez você não se recorde, mas entre 2009 e 2011 a cena norte-americana foi dominada por artistas que encontraram em temas litorâneos, ruídos e guitarras deliciosamente nostálgicas a base para uma sequência de trabalhos importantes. São nomes como Girls, The Drums, Wavves, Dum Dum Girls Smith Westerns, Best Coast e tantos outros grupos que surgiram tão rápido quanto desapareceram. Dez anos após esse curioso fenômeno, satisfatório perceber nas canções de Flower of Devotion (2020, Fire Talk), terceiro e mais recente álbum de estúdio da banda Dehd, um misto de regresso e criativa desconstrução de todo esse vasto acervo de obras.

Concebido em um intervalo de poucos meses, o sucessor do ótimo Water (2019), lançado no último ano, evidencia o completo amadurecimento do trio formado por Emily Kempf, Jason Balla e Eric McGrady. “Corra para se proteger, pois eu estou quebrada / E quando eu vou embora, eu ando sozinha“, canta a vocalista da banda em um precioso exercício de auto-aceitação. São versos curtos, porém, sempre expressivos, como se Kempf, pela primeira vez em mais de cinco anos de grupo, se sentisse realmente à vontade para explorar as próprias desilusões e conflitos intimistas, proposta que dialoga de forma com uma frente cada vez maior de ouvintes.

São letras sempre regidas pela dualidade dos temas. Instantes em que o grupo de Chicago celebra o amor (“Eu te amo / Estou sempre pensando em você“), porém, sutilmente se permite sufocar pelo mesmo sentimento (“Bem, eu ainda vejo você com fogo em meus olhos / Te vi caminhando, mas sei que isso é um adeus“), conceito reforçado logo nos primeiros minutos do disco, em Desire. Um misto de dor e libertação, entrega e saudade, direcionamento que se reflete até o último instante do disco, em Flying. “Se isso é tudo o que temos, que assim seja / Valeu à pena saber que você existe / Conhecer você é se importar / Conhecer você e saber que foi um pouco injusto“, cresce a letra da canção.

Entretanto, nem só de desilusões amorosas vive grupo norte-americano. Exemplo disso acontece em Month, quinta faixa do disco. “O mês chega para todos os outros / Mas pra mim é outra coisa / Este novo sentimento de verão sem fim / Vem e vai“, canta. São versos em que discute a passagem do tempo, o tédio da vida adulta e a constante sensação de deslocamento do eu lírico, conceito que acompanha o trabalho da banda desde o início da carreira, mas que ganha novo tratamento dentro do presente disco, vide músicas como Nobody e Disapper. É como se Kempf transportasse para dentro de estúdio toda a angústia e caos interno acumulado nos últimos meses.

Interessante notar que mesmo consumido pela melancolia dos temas, Flower of Devotion em nenhum momento soa como um registro arrastado ou excessivamente doloroso. Parte desse resultado vem da base ensolarada que acaba se refletindo em diversos momentos ao longo da obra. Canções que atravessam o rock litorâneo, típico da trilha sonora de Pulp Fiction, para provar das melodias detalhistas de veteranos como Cocteau Twins e Broadcast, duas das principais referências criativas do trio de Chicago. Surgem ainda pequenos coros de vozes, texturas de guitarras e a bateria firme de McGrady, cuidado que se reflete mesmo nos momentos menos expressivos da obra.

Não por acaso, Flower of Devotion se revela como o álbum mais equilibrado da banda. Instantes de breve experimentação, sempre pontuados por momentos acessíveis e faixas que parecem pensadas para grudar na cabeça do ouvinte. Uma verdadeira coleção de pequenos acertos, estrutura que se reflete não apenas na poesia confessional e detalhista de Kempf, mas em cada mínimo fragmento do trabalho. Da maior participação de Balla no uso das vozes, passando pelo tratamento dado aos arranjos, poucas vezes antes os integrantes do Dehd pareceram tão seguros da própria obra quanto nas canções do presente disco.