"Desfaz de Conta"

Ano: 2019
Selo: YB Music
Gênero: Indie, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Juliana Perdigão e Mombojó
Ouça: O Que É o Que, Vuco-Vuco e Toda Solidão
Nota: 8.5

Crítica | “Desfaz de Conta”, Lulina

Poucos artistas parecem entender e retratar com tamanha naturalidade o cotidiano triste de qualquer jovem adulto quanto Lulina. Seja por meio da comicidade impressa em Cristalina (2009), semi-coletânea em que amplia parte do material produzido em CD-Roms e arquivos digitais no começo dos anos 2000, ou no direcionamento sóbrio que embala os versos do sucessor Pantim (2013), tudo parece trabalhado de forma profundamente honesta, sempre sensível. Um misto de amargura, clareza e constante provocação, estrutura que ganha contornos políticos e busca por novas possibilidades nas canções do terceiro e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora pernambucana, Desfaz de Conta (2019, YB Music).

Misto de sequência e lenta desconstrução do material entregue pela artista há seis anos, o novo disco parte de uma estrutura talvez minimalista na composição dos arranjos, porém, deliciosamente complexa, por vezes imensa, na formação dos versos. Um esforço criativo entre a cantora e seu principal parceiro de produção, o músico Maurício Tagliari, em eliminar o uso da bateria, investir no reducionismo dos instrumentos e, de maneira sutil, alavancar o lirismo agridoce que serve de sustento ao disco até o último instante da obra, na atmosférica Sorriso.

Não por acaso, Lulina escolheu O Que É o Quê como faixa de abertura do disco. Do uso comedido das guitarras à percussão econômica de Thomas Harres, dos sintetizadores de Dudu Tsuda à voz e saxofone complementar de Maurício Pereira, tudo se revela aos poucos, sem pressa, como um indicativo claro do som incorporado pela artista. “Nenhuma tristeza fica de pé / Nenhuma certeza fica de pé / Nenhuma besteira fica de pé“, canta enquanto discute a inevitável passagem do tempo e o abrandamento de tudo aquilo que “um dia não é mais“. Frações poéticas e instrumentais que se conectam ao material entregue durante o lançamento de Pantim, porém, preservando a mesma leveza e atmosfera pop que embala o trabalho da cantora em Cristalina.

Observado de maneira atenta, Desfaz de Conta parece alcançar um ponto de equilíbrio entre os dois primeiros trabalhos da cantora. Se em instantes Lulina transforma o próprio isolamento em um delicado elemento cômico, marca da divertida Toda Solidão (“Toda solidão tem suas maravilhas / Tem seu lado bom / A cantora aqui que o diga / Se não tivesse sozinha não fazia essa modinha, não deixava esse legado“), faixas como Quem É Quem apontam para uma direção completamente distinta. “Quem é quem na mais difícil situação / Deus, demônio, dependendo de uma decisão / Tomada no susto, no calor do momento / No medo de um arrependimento“, reflete enquanto guitarras e sintetizadores se revelam ao público em uma medida própria de tempo, estrutura que naturalmente faz lembrar do clássico And Then Nothing Turned Itself Inside-Out (2000), uma das grandes obras do Yo La Tengo. 

São instantes de profunda leveza, como na curtinha Banheiros Produtivos, samba que parece gravado no banheiro da cantora, mas que serve de contraponto à atmosfera densa de Vuco-Vuco, composição que se revela em meio a melodias volumosas, sempre guiadas pela linha de baixo destacada do músico Gabriel Bubu. Um ziguezaguear de ideias que mostra o cuidado da artista durante toda a execução da obra, proposta que faz do terceiro álbum da artista pernambucana um registro que carece de tempo e uma audição atenta até que o ouvinte o absorva em totalidade.

É justamente esse esmero que faz de Desfaz de Conta uma obra tão recompensadora. São jogos de palavras que discutem a atual situação política do Brasil, caso de Carne Burro (“Uma coisa fora do lugar incomoda / Muita coisa fora do lugar ninguém nota“), e o comportamento dos indivíduos nas redes sociais, como em Tem Coisa Aqui (“Se eu desligar o celular eu me desligo … Se eu registrar vou esquecer minha ausência“) e Cantor Pop dos Sonhos (“Me parece ser nada real / Querer parecer tão ideal“), sem necessariamente fazer disso o estímulo para uma obra arrastada. Fragmentos de vozes e ambientações contidas que conduzem o ouvinte cada vez mais para dentro da obra, proposta que se reflete logo na imagem de capa do disco, como um convite a visitar e se perder pelo universo particular de Lulina.