"Designer"

Ano: 2019
Selo: 4AD
Gênero: Art Pop, Folk, Alternativa
Para quem gosta de: Julia Holter e Weyes Blood
Ouça: The Barrel e Designer
Nota: 8.0

Crítica | “Designer”, Aldous Harding

Revisitar a década de 1970 em uma linguagem particular e criativamente desafiadora, esse tem sido o propósito de diferentes representantes da cena alternativa nos últimos meses. Da nostalgia futurística que embala o trabalho de Weyes Blood, em Titanic Rising (2019), passando pelo experimentalismo de Julia Holter, no extenso Aviary (2018), ou mesmo o completo minimalismo que embala as canções de Jessica Pratt, no ainda recente Quiet Signs (2019), sobram registros marcados pelo evidente refinamento melódico e forte diálogo de suas realizadoras com o passado.

O mesmo direcionamento nostálgico embala o terceiro e mais recente trabalho de estúdio da cantora e compositora neo-zelandesa Aldous Harding, Designer (2019, 4AD). Sequência ao delicado Party (2017), o novo álbum traz de volta a mesma atmosfera intimista e base acústica detalhada há dois anos, porém, partindo de um novo direcionamento estético. São vozes complementares, sintetizadores e inserções pontuais que sutilmente ampliam os limites da obra.

Mais uma vez acompanhada pelo produtor britânico John Parish (PJ Harvey, Perfume Genius), Harding entrega ao público uma obra que se revela em pequenas doses. Exemplo disso está na riqueza de detalhes que sutilmente envolve The Barrel, uma delicada e metafórica interpretação sobre a fluidez incerta do amor. “A onda de amor é uma ferida transitória / A água é a casca e nós somos o nó / Mas eu vi um arco de mão fora do cano“, canta enquanto melodias, batidas e vozes se espalham aos poucos, sem pressa.

Composição mais extensa do disco, Damn é outra criação que encanta pela forma como Harding parece seguir em uma medida própria de tempo, encaixando cada fragmento de forma minuciosa. Utilizando de um piano cíclico, perceba como a musicista cria pequenas brechas para a inserção de um saxofone, melodias atmosféricas e a voz limpa, forte. Em Zoo Eyes, terceira faixa do disco, o mesmo comprometimento estético, porém, partindo de uma estrutura ensolarada, efeito reforçado pela voz doce, sopros e guitarras que surgem de forma espaçada.

A própria faixa-título do disco é uma criação de Harding que exige tempo até se revelar por completo. Inaugurada em meio a violões tímidos, a canção cresce a cada nova audição, revelando uma seleção de instrumentos e melodias que servem de complemento aos versos lançados pela cantora. Do uso delicado da percussão, passando pelo acréscimo dos pianos e sopros, cada novo movimento da artista revela um universo de pequenos detalhes, estrutura que orienta a experiência do ouvinte até a música de encerramento do álbum, Pilot.

Tamanho esmero e refinamento na composição do trabalho talvez distancie o ouvinte mais apressado. Da sutileza explícita na imagem de capa do disco, passando pelo alicerce referencial que envolve toda a identidade visual e clipes produzidos para o álbum, cada limite do registro parece minuciosamente calculado por Harding e seus parceiros de estúdio, forçando uma audição atenta e paciente. Camadas instrumentais, fragmentos e vozes que sutilmente convidam o público a se perder pelo universo particular da musicista.