"Desire"

Ano: 2020
Selo: Izimakade
Gênero: Experimental, Eletrônica, Art Pop
Para quem gosta de: Petite Noir e Yves Tumor
Ouça: Tavern Kween e You Think I'm Horny
Nota: 8.0

Crítica | Desire Marea: “Desire”

A perturbadora imagem de capa de Desire (2020, Izimakade), estreia de Desire Marea em carreira solo, traz algumas pistas, porém, está longe de traduzir o real impacto e grandeza do som produzido pelo músico sul-africano. Conhecido pelo trabalho como integrante do FAKA, importante dupla de Joanesburgo, o artista que hoje reside na litorânea Durban, parece ter encontrado no criativo cruzamento de ideias a base para cada uma das composições que recheiam o registro. São experimentações com a música eletrônica, ruídos e vozes sempre raivosas, como se Marea, nascido Buyani Duma, transportasse para dentro de estúdio seus próprios medos, tormentos e inquietações.

E isso pode ser percebido logo nos primeiros minutos da obra, na sequência composta pela introdutória Self Center e Zibuyile Izimakade. São pouco menos de cinco minutos em que Marea se espalha em meio a sintetizadores inexatos, batidas tribais e instantes de profunda entrega emocional, intensidade que aumenta à medida em que o registro ganha forma. É como se o artista sul-africano preservasse a essência do material entregue pelo FAKA, porém, partindo de um novo direcionamento criativo, conceito que embala a experiência do ouvinte até a derradeira e extensa Studies in Black Trauma.

De fato, difícil não pensar em Desire como um trabalho feito para ser absorvido do início ao fim, sem pausas. É como se cada composição servisse de base para a faixa seguinte, arrastando o ouvinte para dentro de um território marcado pela permanente corrupção de ideias. Instantes em que Marea vai do completo reducionismo à turbulenta inserção das batidas, ruídos e abstrações sintéticas, conceito reforçado com naturalidade na dobradinha composta por Tavern Kween e Thokozani. São ecos de Petite Noir e Yves Tumor, porém, dissolvidos dentro da estranha base conceitual que tanto caracteriza as criações do músico sul-africano.

Exemplo disso pode ser percebido em You Think I’m Horny, terceira faixa do disco. Uma das primeiras composições do álbum a serem apresentadas ao público, a canção parte de uma base atmosférica, sempre regida pelas vozes instrumentais de Marea, porém, cresce no uso das batidas e sobreposições etéreas que poderiam facilmente ser encontradas em um disco de ANOHNI. “Honestamente, tudo que eu quero ser / É tudo que você precisar / Me ligue quando sentir minha falta“, confessa. É como se o cantor fizesse dos próprios desejos um precioso componente de diálogo com o ouvinte, convidado a se perder em instantes de maior melancolia e conflitos sempre intimistas.

Você brincou com meus sentimentos / Você brinca com meu tempo / Você joga com meu dinheiro / Você brinca com a minha vida / Você tentou me matar“, dispara em Ntokozo, outro importante registro da completa vulnerabilidade de Marea durante toda a execução da obra. São versos sempre regidos pela força dos sentimentos, proposta que ora convida o ouvinte a dançar, como nos minutos iniciais do trabalho, ora flutua em meio a ambientações jazzísticas e instantes de maior estranhamento, ponto de partida de toda a sequência de músicas que surgem até o fechamento do trabalho.

Tamanho domínio no processo de composição do trabalho reflete a imagem de um artista que sabe exatamente que direção seguir dentro de estúdio. Utilizando da experiência como integrante do FAKA, Marea potencializa as próprias habilidades e sentimentos durante toda a execução do álbum. São canções que partem de conflitos vividos pelo próprio artista, porém, ganham novo resultado na permanente desconstrução de cada novo elemento. Ruídos, batidas, melodias e vozes que se entrelaçam de forma sempre provocativa, cuidado que se reflete mesmo nos momentos menos expressivos da obra.