"Devour"

Ano: 2019
Selo: Sacred Bones Records
Gênero: Experimental, Noise
Para quem gosta de: Lingua Ignota e Prurient
Ouça: Spit It Out e Homeostasis
Nota: 7.8

Crítica | “Devour”, Pharmakon

Para além da massa de ruídos que tem sido explorada por Margaret Chardiet na última década, cada novo álbum de estúdio do Pharmakon se revela como um inusitado estudo da natureza humana. Enquanto Abandon (2013) fez do isolamento da própria artista um estímulo para a composição das vozes e temas instrumentais, durante a produção do trabalho seguinte, Bestial Burden (2014), Chardiet utilizou do longo período de internação em que tratou da saúde debilitada como alicerce criativo para a obra. Ideias que se articulam de maneira inexata, porém, organizadas dentro de um conceito sempre específico.

Quinto e mais recente álbum de estúdio da artista nova-iorquina, Devour (2019, Sacred Bones Records) nasce como um precioso exemplo da capacidade de Chardiet em fazer de um elemento pontual o alicerce temático para uma obra inteira. Sequência ao material entregue no denso Contact (2017), trabalho em que decidiu explorar o sufocamento proposto pelas relações humanas, o novo disco encontra na temática da auto-canibalização a base para o ambiente instável que orienta a experiência do ouvinte até a derradeira Pristine Panic / Cheek by Jowl.

Devour usa da auto-canibalização como alegoria para a natureza autodestrutiva dos seres humanos; Em nossas células, nossas mentes, nossa política e nossa espécie, os seres humanos são autodestrutivos. Mas esse comportamento não acontece por acaso. É uma resposta interior e instintiva a um mundo de crescente violência externa, ganância e opressão“, escreveu no texto de apresentação da obra. É partindo dessa proposta que Chardiet garante ao público não apenas a base conceitual do disco, como o direcionamento rítmico e estrutural de cada composição.

Perceba como cada uma das cinco faixas partem de uma montagem grandiosa, suja e dominada pelo uso complementar das vozes. São incontáveis sobreposições estéticas que ora apontam para a música industrial, ora mergulham no mais completo experimentalismo, brincando com a percepção do ouvinte. Ruídos metálicos que alcançam seu ápice, mas que, lentamente, são consumidos em meio a melodias atmosféricas, como se Chardiet destruísse o próprio trabalho. É como se tudo fosse dissolvido em meio a paisagens abstratas, proposta que naturalmente rompe com os antigos trabalhos de Pharmakon.

Exemplo disso está em Spit It Out, faixa que cresce em meio a batidas densas e cíclicas, alcança seu momento de maior grandiosidade e se esfarela em meio a ambientações fantasmagóricas, quase etéreas. O mesmo direcionamento acaba se refletindo em Self-Regulating System, composição que encolhe e cresce a todo instante, preparando o ouvinte para o encerramento quase brando, como uma propositada fuga de tudo aquilo que a artista tem produzido desde o início da carreira.

Talvez previsível quando próximo de outros trabalhos recentes produzidos por Chardiet, principalmente o insano Bestial Burden, Devour encanta justamente pela forma como a artista nova-iorquina preserva a essência conceitual que embala o registro, investindo no permanente desgaste das ideias, ruídos e abstrações eletrônicas em um sentido claro de consumir a própria obra. Trata-se de um evidente exercício de estilo, como um novo e sufocante exercício criativo de Pharmakon.



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