"Deceiver"

Ano: 2019
Selo: Captured Tracks
Gênero: Rock Alternativo, Shoegaze
Para quem gosta de: Wild Nothing e Cloud Nothings
Ouça: Skin Game e Like Before You Were Born
Nota: 8.0

Crítica | DIIV: “Deceiver”

De todo o catálogo de bandas que surgiram na virada da década, o DIIV talvez seja a que mais tenha se permitido provar de novas possibilidades, porém, preservando a própria essência criativa. Em um intervalo de poucos anos, o projeto comandado pelo guitarrista Zachary Cole Smith foi do som urbano detalhado em Oshin (2012), casa de músicas como How Long Have You Known? e Doused, para a psicodelia delirante de Is the Is Are (2016), estímulo para a composição de algumas das músicas mais conhecidas do grupo nova-iorquino, caso de Bent (Roi’s Song), Dopamine e, principalmente, Under the Sun.

Três anos após o lançamento do último álbum de estúdio da carreira, Smith e seus parceiros de banda, Andrew Bailey (guitarras), Colin Caulfield (baixo, guitarra, voz) e Ben Newman (bateria), estão de volta com um novo registro de inéditas. Em Deceiver (2019, Captured Tracks), o quarteto nova-iorquino segue de onde parou no disco anterior, estreitando de maneira explícita a relação com o som produzido na década de 1990. São guitarras carregadas de efeitos, blocos de ruídos e versos sempre melancólicos, estrutura que naturalmente aponta para a produção de veteranos como Slowdive e My Bloody Valentine, algumas das principais referências criativas da banda.

Não por acaso, o grupo nova-iorquino decidiu colaborar com o experiente Sonny Diperri (Nine Inch Nails, My Bloody Valentine), transportando para dentro de estúdio a essência de clássicos da cena alternativa. E isso se reflete logo nos primeiros minutos do disco, em Horsehead, canção que vai do experimentalismo sujo da cena britânica à crueza da produção norte-americana, lembrando nomes conceitualmente distintos, como Sonic Youth, Dinosaur Jr. e Ride. Um precioso cruzamento de informações que orienta a experiência do ouvinte até a faixa de encerramento do disco, a extensa Acheron.

Entretanto, para além da simples reciclagem de tendências, sobrevive no material entregue em Deceiver um evidente exercício de aprimoramento estético por parte do DIIV. Exemplo disso está na criativa sobreposição de ideias que toma conta de Skin Game, terceira faixa do disco. São pouco mais de quatro minutos em que guitarras e vozes etéreas se entrelaçam em uma estrutura ritmada, maior a cada novo movimento. Um mantra sujo, direcionamento que se reflete também na estrutura cíclica de Taker e demais composições em que o quarteto nova-iorquino parece brincar com a propositada repetição das ideias.

Curioso perceber em músicas menos complexas, como a delicada The Spark, a passagem para um lado ainda mais atrativo da obra. Da leveza na construção dos versos ao uso complementar das guitarras, tudo se projeta como uma fuga do restante da obra, entregando ao público um banda livre de possíveis excessos. O mesmo cuidado acaba se refletindo em Like Before You Were Born, segunda faixa do disco. Mesmo guiada pela composição suja das guitarras, a canção sustenta nos versos um claro exercício de amadurecimento poético por parte da banda. “Envolto pela calma / Eu acho que a vida deles continua / É como antes de você nascer / Aquele momento de paz / Como antes de você nascer‘, canta em uma melancólica reflexão sobre a passagem do tempo.

Marcado pelos detalhes e feito para ser revisitado, Deceiver mostra uma banda em pleno domínio da própria obra. Da formação dos arranjos ao refinamento na composição dos versos, tudo soa como como um claro exercício de aprimoramento criativo, como se a banda soubesse exatamente que direção seguir dentro de estúdio. O resultado desse forte comprometimento está na entrega de um registro talvez previsível na forma como o DIIV confessa algumas de suas principais referências, porém, consistente, como se cada elemento apresentado no decorrer da obra exercesse uma função específica.