"Diviner"

Ano: 2019
Selo: Domino
Gênero: Indie, Alternativa, Art Pop
Para quem gosta de: Wild Beasts e These New Puritans
Ouça: Love Crimes e Diviner
Nota: 7.6

Crítica | “Diviner”, Hayden Thorpe

O fim das atividades no Wild Beasts (2002 – 2018) em nada parece ter prejudicado o trabalho do cantor, compositor e multi-instrumentista Hayden Thorpe. Três anos após o lançamento de Boy King (2016), último álbum de estúdio ao lado dos antigos parceiros de banda, o músico britânico faz do recém-lançado Diviner (2019, Domino), primeiro registro de inéditas em carreira solo, a passagem para um universo tomado por experiências ainda mais sensíveis e intimistas. São versos consumidos pela dor, desilusões amorosas e tormentos pessoais que orientam a experiência do ouvinte até o último instante da obra.

Não por acaso, Thorpe decidiu justamente investir na composição de um material contido, por vezes atmosférico, como uma fuga natural do rock eletrônico que vinha explorando com os antigos parceiros de banda desde Present Tense (2014). Exemplo disso está na auto-intitulada música de abertura do disco. Concebida em meio a pianos cíclicos, a canção, assinada em parceria com o conterrâneo SOHN, sustenta nos versos a completa entrega emocional do artista. “Eu serei seu discípulo / Mostre-se / Vivendo um sonho febril / Perdi o controle / Você é meu adivinho / Mostre-me onde ir“, canta em meio a vozes fortes e instantes de profunda confissão que fazem lembrar os últimos trabalhos de ANOHNI.

Em Love Crimes, quarta faixa do disco, o mesmo direcionamento melancólico na composição dos versos. “Estamos vivendo uma vida de crimes de amor / E eu estou desistindo desta vezMesmo o maior dos crimes de amor / Até o maior dos amores / Pode ser abandonado“, canta enquanto pianos cíclicos e guitarras atmosféricas correm ao fundo da canção, lembrando parte do material entregue pelo próprio Wild Beasts durante o lançamento de Smother (2011). Melodias e versos tristes que se revelam aos poucos, sem pressa, estímulo para a produção de faixas como Stop Motion, In My Name e toda a sequência de versos que embala a segunda metade do registro.

Nos momentos em que se permite provar de uma sonoridade mais radiante, como em Straight Lines, Thorpe cresce significativamente. São pouco menos de quatro minutos em que o músico britânico parte de uma ambientação contida para provar de elementos da música pop e R&B, flertando vez ou outra com a obra de veteranos como Prince. Em Earthly Needs, batidas e colagens eletrônicas que apontam para o mesmo universo de conterrâneos como Sampha e James Blake. Na lenta sobreposição de Anywhen, melodias e vozes que se entrelaçam de forma labiríntica, cercando e confortando o ouvinte.

Uma vez imerso nesse cenário, Thorpe entrega ao público uma obra que tanto acolhe, como sufoca o ouvinte. Se por um lado os versos servem de complemento à narrativa dolorosa que embala as canções do artista, em se tratando dos arranjos, Diviner pouco avança criativamente, dando voltas em um limitado conjunto de melodias tristes e pianos complementares, estrutura que orienta a experiência do público até os últimos instantes da obra, em Impossible Object. Um lento desvendar de ideias e temas sensíveis, como se o artista estivesse se descobrindo dentro de estúdio.

Seguro, como parte expressiva dos lançamentos que movimentaram a cena britânica nos últimos meses, vide o retorno do These New Puritans, em Inside The Rose (2019), e o último álbum de estúdio do Foals, Everything Not Saved Will Be Lost – Part 1 (2019), Diviner resgata uma série de elementos originalmente testados por Thorpe no Wild Beasts, porém, partindo de um novo direcionamento criativo. É como se o músico encontrasse um ponto de recolhimento ainda maior dentro do ambiente melancólico concebido em parceria com os antigos companheiros de banda. Arranjos e versos trabalhados em uma estrutura reducionista, porém, imensa em seu significado.