"Histórias da Minha Área"

Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: BK e Hot e Oreia
Ouça: O Cara de Óculos, Deus Dará e Não Sei Rezar
Nota: 7.0

Crítica | Djonga: “Histórias da Minha Área”

Nem é cedo demais pra saber que a vida é desgraçada aqui / Meu filho, amor, tem dessas coisas rudes“. Os versos cantados por Bia Nogueira, logo nos primeiros minutos de O Cara de Óculos, faixa de abertura em Histórias da Minha Área (2020, Independente), servem de passagem para o ambiente incerto que marca o quarto álbum de estúdio de Djonga. Sequência ao material apresentado em Heresia (2017), O Menino Que Queria Ser Deus (2018) e Ladrão (2019), o disco, tradicionalmente no dia 13 de março, segue de onde o artista parou no último ano, porém, estabelece no diálogo com diferentes colaboradores, uma tentativa clara do compositor mineiro em se reinventar dentro de estúdio.

Mais uma vez acompanhado de Coyote Beatz, com quem divide a produção das faixas desde o primeiro trabalho de estúdio, Djonga faz do bloco inicial do registro uma extensão natural de tudo aquilo que havia testado nos discos anteriores. São versos marcados pela poesia autocentrados, canções pontuadas por conquistas, medos e crises existencialistas do artista mineiro. Um misto de passado e presente, nostalgia e celebração que vai da infância nas ruas de Belo Horizonte às conquistas que se acumulam desde a estreia com Heresia.

Muito cara certo entrou na vida errada / Dinheiro sujo compra roupa limpa / Essa é a prova que os opostos se atraem / Igual polícia e um preto na parede / Coisa que eu não entendo junto ainda“, rima na já citada O Cara de Óculos. Um misto de resgate pessoal e provocação, proposta que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. Composições talvez desprovidas do mesmo refinamento explícito no álbum anterior, vide o encontro com Filipe Ret, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, porém, sempre marcadas pela precisão dos versos. “Parei de pensar em matar, vingança vai ser ficar vivo / Armas e droga é fetiche dos cara / Porque não sabem o estrago que faz“, dispara Não Sei Rezar, criação em que caminha em direção ao funk político.

Como contraponto aos momentos de maior densidade da obra, o rapper entrega ao público uma seleção de faixas marcadas pela leveza das rimas, batidas e temas instrumentais. São relacionamentos conturbados, como Todo Errado, música em que arrisca como cantor, ou mesmo instantes de profunda entrega sentimental, base para a derradeira Amr Sinto Falta da Nssa Ksa. De fato, sobrevive na faixa de encerramento do disco, colaboração com o experiente Renan Samam (Emicida, Marcelo D2), um dos momentos mais interessantes de Histórias da Minha Área. Longe da produção econômica de Coyote Beatz, Djonga passeia em meio a uma faixa marcada pelos detalhes. São vozes cíclicas e empoeiradas, por vezes íntimas da obra de Madlib, estrutura que se completa pela poesia confessional lançada pelo artista.

Claro que esses momentos de evidente acerto não conseguem disfarçar algumas das canções menos expressivas do trabalho. São músicas como Mania, encontro com MC Don Juan, que talvez funcione quando observada de maneira isolada, porém, se revela de forma deslocada do restante da obra. Nada que se compare à poesia preguiçosa, por vezes infantilizada, que toma conta de Procuro Alguém, oitava faixa do disco. “Alguém que curta Harry Potter / E odeie Senhor dos Anéis como eu / Que ache dinheiro um saco / Que seja linda como a mulher que escolhi pra mim“, rima em uma seleção de pequenos clichês que se completa pelo refrão arrastado: “Ioiô, ioiô, ioiô Ioiô, ioiô, ioiô / Ioiô, sinônimo de amor, ioiô, ioiô“.

Com base nessa estrutura, Djonga entrega ao público uma obra que preserva a essência dos antigos trabalhos, porém, se permite avançar criativamente, mesmo que de maneira irregular. Princípio de uma nova fase na carreira do artista mineiro, Histórias da Minha Área vai da crueza das rimas, como no bem-sucedido encontro com Cristal, em Deus Dará (“Antes de escolher comprar Nike ou Adidas / Certifica que tem banquete pra gente encher a barriga / Não se deslumbra com o caminho ou vai ficar sozinha“), à evidente busca por conforto. Instantes que refletem a força e relevância dos versos assinados pelo rapper mineiro, porém, pontuados momento de maior desequilíbrio, como se o esforço em lançar um disco por ano tivesse seus custos.




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