"Dogrel"

Ano: 2019
Selo: Partisan
Gênero: Pós-Punk, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Idles, Shame e Iceage
Ouça: Too Real, Big e Boys in the Better Land
Nota: 8.0

Crítica | “Dogrel”, Fontaines D.C.

De Iceage, com New Brigade (2011), passando por Silence Yourself (2013), das garotas do Savages; da estreia do Idles, com Brutalism (2017), ao surgimento do Shame, em Songs of Praise (2018), não foram poucos os artistas que decidiram resgatar elementos do pós-punk na última década de forma essencialmente provocativa e autoral. Uma criativa colisão de ideias e conceitos que aponta para diferentes fases e peças importantes do estilo, estrutura que alcança novo e bem-sucedido resultado nas canções do primeiro álbum de estúdio do grupo irlandês Fontaines D.C., Dogrel (2019, Partisan).

Claramente inspirado pela obra de veteranos como The Fall, Wire e demais coletivos que surgiram entre o final da década de 1970 e início dos anos 1980, o registro que conta com produção de Dan Carey (Franz Ferdinand, Bat For Lashes), sustenta no peso das guitarras e batidas secas a base para cada uma das composições entregues pela banda. São pouco menos de 40 minutos em que os músicos Grian Chatten (voz), Conor Deegan III (baixo), Carlos O’Connell (guitarra), Conor Curley (guitarra) e Tom Coll (bateria) não apenas replicam a mesma atmosfera de clássicos do gênero, como revelam ao público uma seleção de versos consumidos pela crueza e provocativo sarcasmo dos temas.

Exemplo disso está na própria faixa de abertura do disco, Big. São pouco menos de dois minutos em que o ouvinte é transportado para as ruas úmidas de Dublin, mergulha na mente retrógrada dos habitantes da capital irlandesa e ainda vislumbra a necessidade de fuga do eu lírico. “Dublin na chuva é minha / Uma cidade grávida com uma mente católica … Minha infância foi pequena / Mas eu serei grande“, clama em meio a versos cíclicos e batidas marcadas, estrutura que se repete em outras composições ao longo da obra, como Chequeless Reckless e Sha Sha Sha, essa última, típica criação do The Clash no início da carreira.

Dos poucos momentos em que perverte essa estrutura, como em Too Real, a busca declarada por novas possibilidades e a evidente força criativa do quinteto. “Ninguém consegue libertar a paixão das mãos ingratas da juventude … Ninguém pode liderar a revolução com necessidades egoístas à parte / Isso é real demais para você?“, questiona enquanto blocos de ruídos e pequenas sobreposições caóticas fazem lembrar o trabalho do Joy Division em músicas como Atrocity Exhibition. O mesmo refinamento poético acaba se refletindo na poesia descritiva Boys in the Better Land, composição que aponta para o clássico Marquee Moon (1977), do grupo nova-iorquino Television.

Interessante perceber que mesmo dentro desse ambiente caótico, músicas como Roy’s Tune desaceleram de forma a revelar um novo direcionamento estético por parte da banda. São guitarras melancólicas que se completam com a letra existencialista da canção, como uma fuga de tudo aquilo que o quinteto vem desenvolvendo desde a faixa de abertura do disco. Escolhida para o encerramento do álbum, Dublin City Sky é outra composição que sintetiza a versatilidade do grupo, provando de melodias acústicas e versos que mais uma vez passeiam pela capital irlandesa.

Misto de coletânea e fina interpretação do material que vem sendo apresentado pelo quinteto em singles como Hurricane Laughter / Winter In The Sun e Chequeless Reckless / Boys in the Better Land, ambos entregues no último ano, Dogrel mostra a força criativa e capacidade do grupo em avançar musicalmente mesmo em um curto intervalo de tempo. São versos que externalizam de maneira explícita os sentimentos, angústias e principais conflitos de cada integrante da banda, fazendo da base nostálgica que rege o disco um mero elemento de imediato diálogo com o ouvinte.



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