"Drama"

Ano: 2019
Selo: QTV
Gênero: Experimental, Eletrônica, Industrial
Para quem gosta de: Negro Leo e Cadu Tenório
Ouça: Síndrome e Nação Pic Pic
Nota: 8.4

Crítica: “Drama”, Tantão e os Fita

O caos reina nas canções de Drama (2019, QTV). Sequência ao experimental Espectro (2017), obra que apresentou ao público o trabalho de Carlos Antônio Mattos, o Tantão, em parceria com a dupla de produtores formada por Abel Duarte e Cainã Bomilcar, os Fita, o registro de apenas sete faixas encontra na crueza das rimas e pequenas corrupções estéticas a base para um dos projetos mais inventivos da presente cena carioca. Frações poéticas que discutem racismo, caos urbano e pequenos delírios pessoais de forma sempre provocativa, insana, como uma extensão natural de tudo aquilo que o artista vinha produzindo em sua antiga banda, a Black Future.

Exemplo disso está na autointitulada faixa de abertura do disco. São pouco menos de seis minutos em que colagens eletrônicas, batidas e sintetizadores tortos se abrem para a inserção dos versos lançados por Tantão. “Crise nas infinitas terras / Infinitas são as dores / E a dor não para / E a dor não para / Não para, não para, não para, não“, despeja em um misto de dor e libertação. Ideias que se entrelaçam de forma propositadamente irregular, conceito que ganha ainda mais destaque na faixa seguinte do álbum, Vai Não Volta, um som anárquico que parece dialogar com o rap industrial do Death Grips e demais representantes da cena estrangeira.

Assim como em Espectro, são composições montadas a partir de fragmentos de vozes e bases cíclicas, estrutura que reforça o aspecto caótico que vem sendo aprimorado pelo grupo desde os primeiros ensaios. Variações instrumentais, batidas e ruídos que encolhem e crescem a todo instante, sufocando o ouvinte. Síntese desse direcionamento ecoa com naturalidade em Música do Futuro. Um turbulento conjunto de ideias, samples e ritmos, estrutura que naturalmente alavanca a poesia anárquica despejada por Mattos.

O mesmo direcionamento insano acaba se refletindo na faixa seguinte do disco, Síndrome. Marcada pelo inventivo jogo de palavras em torno do domínio criado pela Síndrome de Estocolmo, a canção parte de inquietações e tormentos particulares do eu lírico (“Estou Como Você / Síndrome“) para mergulhar um cenário cada vez mais caótico, amplo. Versos que denunciam a violência do Estado (“O Estado é bruto”) e, principalmente, o confesso desejo de mudança que parte de qualquer indivíduo (“A conquista da liberdade / Liberté / Fratenité / Cocainé / Estou com você“). Uma delirante soma de experiências, estrutura que ainda serve de passagem para a atmosférica O Sinistro, música dominada pela inserção dos sintetizadores que parecem apontar para o fim dos anos 1980.

É dentro dessa estrutura nostálgica, por vezes acessível, que o grupo estabelece as batidas e vozes de Adoração de Ídolos. Contida quando próxima do restante da obra, a canção se espalha aos poucos, revelando sintetizadores e melodias empoeiradas que parecem saídas de algum clássico do Super Nintendo. Um respiro breve, como uma fuga criativa do som propositadamente instável que sem sendo explorado pelo trio carioca desde os primeiros segundos do disco.

Escolhida para o encerramento do trabalho, Nação Pic Pic traz de volta o mesmo discurso político que orienta a poesia de Mattos desde a boa fase no Black Future. “Quanto negros tem aqui? / Quantos índios tem aqui? / Quantas trans tem aqui? / Quantos gays tem aqui? / Quantas minas tem aqui?“, questiona enquanto batidas ecoadas e entalhes eletrônicos se esbarram ao fundo da canção. São blocos de ruídos, vozes e camadas atmosféricas dissolvidas em uma estrutura menos enérgica, porém, tão brutal quanto o conjunto de ideias que parece vibrar no restante da obra.