"Dreaming Fully Awake"

Ano: 2019
Selo: Balaclava Records
Gênero: Indie, Indie Folk, Soft Rock
Para quem gosta de: Wilco e Transmissor
Ouça: Nobody But Me e Creatures of The Night
Nota: 8.5

Crítica | Moons: “Dreaming Fully Awake”

Delicada, a fotografia que estampa a imagem de capa de Dreaming Fully Awake (2019, Balaclava Records), trabalho do artista belga Yannick Falisse, funciona como um precioso indicativo do som produzido para o terceiro e mais recente álbum de estúdio do coletivo mineiro Moons. De essência acolhedora, como um ponto luminoso em uma noite escura, o registro de nove faixas ganha forma aos poucos, sem pressa, cercando e confortando o ouvinte em uma trama de melodias minimalistas e versos sempre confessionais, leveza que tem sido aprimorada pela banda desde o primeiro álbum de estúdio da carreira, o bucólico Songs of Wood & Fire (2016).

Feito para ser desvendado aos poucos, conceito evidente desde o antecessor Thinking Out Loud (2018), Dreaming Fully Awake diz a que veio logo nos primeiros minutos disco, em Creatures of The Night. Concebida em meio a sintetizadores atmosféricos, a canção convida o ouvinte a mergulhar em um universo de experiências oníricas, versos descritivos e instantes de doce contemplação, produto do esforço coletivo entre André Travassos (letras, voz, guitarra e violão), Jennifer Souza (voz e guitarra), Bernardo Bauer (voz e baixo), Digo Leite (gaita, guitarra e lap steel), Felipe D’Angelo (voz, teclados, piano e guitarra) e Pedro Hamdan (bateria). “Algo dentro me diz para não ter medo / Meus demônios se foram, só por um tempo / Eles podem estar de volta com os primeiros raios de luz / O que mais eu poderia querer?“, questiona Souza, indicando o caminho misterioso que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra.

São reverberações etéreas, sempre precisas, como se para cada elemento que assume uma posição de destaque no decorrer da obra, outro fosse delicadamente silenciado. Exemplo disso ecoa com naturalidade na própria faixa-título do disco. Enquanto os versos refletem sobre o inevitável distanciamento de um casal – “Um dia, quando você se cansar de mim / E sair por aquela porta / nunca voltar … Talvez seja tarde para mudar / E pedir outra chance” –, frações instrumentais encolhem e crescem a todo instante, abrindo passagem para a inserção de guitarras atmosféricas, a linha de baixo destacado e um solo de saxofone melancólico, como se saído de algum disco do Destroyer, como Kaputt (2011) ou Ken (2017).

Claro que essa busca por um som deliciosamente climático não interfere na produção de músicas acessíveis, quase imediatas. É o caso de Earhquakes. Da construção dos arranjos ao tratamento dado aos vocais, tudo faz lembrar do Wilco nos instantes de maior euforia da banda de Chicago, vide músicas como Karma ou a recente Everyone Hides. Em Sweet and Sour, sétima faixa do disco, melodias e versos sedutores, como se pensados para capturar a atenção do ouvinte logo nos primeiros segundos, lembrando a minúcia de Sade, influência confessa do Moons. Pouco mais de 30 minutos em que o grupo mineiro não apenas revela algumas de suas principais referências criativas, como faz de cada composição um delicado exercício de entrega emocional.

Exemplo disso ecoa com naturalidade na romântica Nobody But Me. “Um dia eu conheci uma mulher divagando / Ela estava livre como a pomba ao vento / Um amor em mudança e inspirador / Onde eu não preciso ser ninguém além de mim“, canta enquanto guitarras e batidas se revelam ao público em pequenas doses, alavancando cada fragmento poético lançado por Travassos. Versos marcados pela forte vulnerabilidade e leveza, contraponto ao material que chega logo à frente, na melancólica, ainda que libertadora, No More Tears About It. “Você me deixou, você me matou / Você colocou meu coração em uma jarra / E ultimamente tenho pensado / Em tê-lo de volta em meu peito“, canta, indicando a fluidez sentimental que serve de sustento ao disco.

Concebido em um intervalo de apenas quatro dias e registrado em um antigo gravador de fita de rolo Tascam 388, o trabalho que conta com produção assinada por Leonardo Marques (Transmissor, Teago Oliveira), parceiro da banda desde o primeiro álbum de estúdio, reflete o cuidado e pleno amadurecimento criativo do coletivo mineiro. É como se do material apresentado em Thinking Out Loud, há pouquíssimos meses, o sexteto fosse capaz de ir além, revelando ao público delicadas camadas instrumentais, inserções minimalistas e versos que mesmo íntimos de seus realizadores, parecem capazes de dialogar com o ouvinte sem grandes dificuldades, minúcia que pode ser percebida até o último instante do trabalho.



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