"Drik Barbosa"

Ano: 2019
Selo: Laboratório Fantasma
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Karol Conká e Tássia Reis
Ouça: Rosas, Liberdade e Quem Tem Joga
Nota: 8.0

Crítica | Drik Barbosa: “Drik Barbosa”

A versatilidade talvez seja a principal marca do primeiro álbum de Drik Barbosa em carreira solo. Da rima crua e esperançosa que inaugura o álbum, em Herança (“A fé sempre foi minha bússola / Não vim pra ser sozinha / Minhas irmãs, pedaços meus / Missão é ser colo pra elas“), passando pelo diálogo breve com a música pop, no encontro com Glória Groove e Karol Conká, em Quem Tem Joga (“Com a sagacidade que a Shuri tem / Corto falsidade igual Shuriken / Botei cor na cabeça do gueto / Que nem Ariel Barbeiro, só joga quem tem“), cada fragmento do disco reflete a capacidade da rapper paulistana em transitar por entre gêneros de forma bem sucedida, como uma natural extensão de tudo aquilo que a artista vem produzindo desde o início da carreira.

Perfeita representação dessa criativa fluidez de ideias ecoa com naturalidade logo nos primeiros minutos do álbum, na colorida Liberdade. Mesmo guiada pela leveza das batidas, efeito direto da produção cuidadosa de GROU, a canção, completa pela presença da rapper britânica R.A.E. e Luedji Luna, sustenta nos versos um importante reflexão sobre machismo, empoderamento feminino e abuso sexual. “Garotos se perdem, esquece a hora de dormir / Falando de mais, quem fala não faz / Já percebi que / Tem muita ideia e pouca ação“, rima, preparando o terreno para a chegada do refrão destacado: “Menino, atenção, menino / Não é à toa que liberdade é no feminino“.

O mesmo direcionamento temático acaba se refletindo mais à frente, na densa Rosas. “Sou ascensão / Vim de baixo, debaixo da opressão / Complexa demais pra sua compreensão / Visão periférica, voz periférica / Coloco o ego desses boy na minha mão / Quero mais que kits, era Nefertiti“, pontua. São pouco mais de quatro minutos em que Barbosa vai de pequenas conquistas pessoais à força da mulher negra, como um avanço claro em relação ao material entregue no primeiro álbum do coletivo Rimas & Melodias, do qual faz parte. Frações poéticas que sintetizam o lirismo apurado da artista, conceito reforçado na colaborativa Luz, parceria com Emicida e Rael. “Calando essas língua que me subestima / Mudando estatísticas, o sentido é pra cima / Nas andanças artísticas, energia é ímã“, celebra.

Entretanto, para além do forte discurso político, sobrevive na força dos sentimentos detalhados pela artista um importante componente criativo para o fortalecimento da obra. Exemplo disso está no misto de pagode romântico e R&B que toma conta de Tentação. Encontro com os baianos do ÀTTØØXXÁ, a canção segue em um misto de canto e rima, capturando a atenção do ouvinte logo nos primeiros minutos. “Nega, eu tô com saudade / A cama tá tão fria sem você / Cê sabe que eu tô na maldade / Desejo invade pra gente ser / Só love que nem pagode dos 90“, cresce a letra da canção, como uma fuga breve da poesia sóbria que invade o restante da obra.

Em Tão Bom, nona faixa do disco, a mesma leveza na composição das batidas, melodias e versos. Com produção de 2B e composta em parceria com Rincon Sapiência, a canção ganha forma aos poucos, sem pressa, como a passagem para um ambiente particular de Barbosa. “Te quero bem, não quero despedida / Vivendo amor, eu tô desimpedida / Tô nesse corre, sinto várias fita / De coração, eu vou nessa batida“, rima em tom acolhedor, indicando a essência esperançosa que marca os instantes finais do álbum. São músicas como Renascer (“Cada dor que passou foi chance de renascer / Olhando sei que não falta, hoje, motivo pra agradecer“) e Sonhando (“Tem dias que eu penso que eu tô sonhando / Vendo tudo isso que eu ando vivendo / É tenso, mas Exu vai me guiando“) em que a rapper utiliza das próprias conquistas como um componente de diálogo com o público.

Sequência ao material entregue no antecessor Espelho EP (2018), o homônimo debute de Drik Barbosa parece jogar com possibilidades, utilizando da liberdade criativa de um típico registro de estreia como um estímulo natural para a composição das faixas. Trata-se de uma obra conscientemente irregular, como se a rapper paulistana testasse os próprios limites dentro de estúdio, fazendo desse criativo cruzamento de ritmos um natural estímulo para a composição da obra. Canções que se espalham sem ordem aparente, tornando a experiência do ouvinte sempre curiosa, direcionamento que se reflete até o último instante do trabalho.



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