"Club Future Nostalgia"

Ano: 2020
Selo: Warner
Gênero: Pop, Eletrônica, Dance
Para quem gosta de: Jessie Ware e Selena Gomez
Ouça: Boys Will Be Boys, Cool e Break My Heart
Nota: 7.3

Crítica | Dua Lipa: “Club Future Nostalgia”

Em Future Nostalgia (2020), o grande acerto de Dua Lipa está na capacidade da cantora e seus parceiros de estúdio em alcançar um ponto de equilíbrio entre a confessa referência ao pop dos anos 1970/1980 e a consolidação de uma identidade própria. Composições que dialogam com a essência de veteranos da música pop, como Kylie Minogue, Blondie e Madonna, mas que em nenhum momento rompem com o material apresentado anos antes, durante a produção do homônimo debute que revelou faixas como New Rules e Last Dance. Satisfatório perceber nas canções do complementar Club Future Nostalgia (2020, Warner) uma natural expansão desse mesmo universo criativo, indicativo do completo domínio da artista em relação ao próprio trabalho.

Inicialmente pensado como uma mixtape assinada pela produtora norte-americana The Blessed Madonna, conhecida pelo repertório que vai da house ao pop em uma linguagem sempre particular, o trabalho evoluiu de forma a se transformar em uma coletânea de remixes de Future Nostalgia. A diferença em relação a outros registros do gênero, sempre marcados pela aleatoriedade dos colaboradores e músicas que pouco dialogam, está no esforço de Dua Lipa em amarrar todas as composições dentro de um mesmo conceito. Canções que emulam as performances em noites de sábado nas rádios britânicas, como o cultuado Essential Mix, da BBC Radio 1, direcionamento que se reflete até o último instante do álbum.

São vozes picotadas, artistas que surgem e desaparecem durante toda a execução da obra e até faixas brincam com a inserção de participações especiais, como no pedido de Mark Ronson para ouvir Buffalo Stance, de Neneh Cherry, ou mesmo a rápida passagem por Hollaback Girl, de Gwen Stefani, nos minutos iniciais de Hallucinate. São quatro ou mais décadas de referências organizadas dentro de um mesmo espaço criativo. É como se do material apresentado em Future Nostalgia e músicas como Don’t Start Now e Physical, a artista britânica fosse capaz de ir além, confessando algumas de suas principais referências criativas e estreitando a relação com alguns dos nomes mais interessantes da produção eletrônica nos últimos anos.

É justamente esse diálogo com personagens pouco conhecidos do grande público que torna a experiência de ouvir Club Future Nostalgia tão satisfatória. Exemplo disso acontece logo nos primeiros minutos do álbum, na excelente releitura de Jayda G para Cool, música que sintetiza todas as transformações da cena inglesa nos últimos anos, indo do future R&B ao garage. Mesmo veteranos, como Moodymann, assumem uma posição de destaque dentro da obra, transportando para o disco parte do que define o alicerce criativo da cantora e seu permanente olhar para o passado. O mesmo acontece em Boys Will Be Boys, música que atravessa as raves dos anos 1990 e chega até o pop dos anos 2010 na criativa sobreposição de ideias que define o material entregue por Zach Witness.

Triste pensar que as faixas menos expressivas do trabalho sejam justamente aquelas produzidas por The Blessed Madonna. Do tratamento morno em Levitating, agora completa pela participação de Madonna e Missy Elliott, passando pela esquecível Love Is Religion, tudo parece menor quando próximo de outras composições apresentadas ao longo do disco. Isso fica ainda mais evidente quando percebermos que músicas antes inofensivas em Future Nostalgia, como Good In Bed, ganham novo significado dentro do álbum, efeito direto da colaboração entre Witness e Gen Hoshino.

Pontuado pela inserção de músicas inéditas, caso da já citada Love Is Religion e That Kind Of Woman, além, claro, da reedição da já conhecida Kiss and Make Up, ao lado do grupo sul-coreano Blackpink, Club Future Nostalgia costura passado e presente da artista britânica de forma bastante consistente. São releituras que preservam o aspecto comercial que define a obra da cantora, porém, sutilmente se permitem explorar caminhos menos óbvios, como no tratamento nada convencional de Yaeji para Don’t Start Now e o próprio Joe Goddard, do Hot Chip, na introdutória Future Nostalgia. Um convite às pistas, porém, longe dos clichês e fórmulas prontas que tradicionalmente definem outros exemplares do gênero.