"Future Nostalgia"

Ano: 2020
Selo: Warner
Gênero: Pop, Dance, Electropop
Para quem gosta de: Selena Gomez e Carly Rae Jepsen
Ouça: Don't Start Now, Hallucinate e Physical
Nota: 8.0

Crítica | Dua Lipa: “Future Nostalgia”

Future Nostalgia (2020, Warner) não é apenas um disco. São vários. Conceitualmente ancorado no pop dos anos 1980 e 1990, o segundo álbum de estúdio da cantora e compositora britânica Dua Lipa, encontra no aspecto revisionista dos elementos o estímulo para uma seleção de faixas que parecem pensadas para grudar na cabeça do ouvinte. Canções que utilizam da nostalgia não vivenciada da própria artista como estímulo para um repertório que vai dos primeiros anos de Madonna ao som florescente do Blondie, das batidas eletrônicas de Kylie Minogue ao romantismo cômico de Lily Allen, proposta que orienta com naturalidade a experiência do público até a derradeira Boys Will Be Boys.

Longe de parecer uma obra inovadora, afinal, não há nada aqui que Taylor Swift já não tenha testado em 1989 (2014) e Carly Rae Jepsen em E•MO•TION (2015), Future Nostalgia encanta justamente pela capacidade da artista em replicar o passado de forma simples e direta. São sintetizadores e batidas cuidadosamente encaixadas dentro de estúdio, minúcia que se reflete tão logo o disco tem início, na autointitulada música de abertura, e segue em meio a canções capazes de rivalizar com alguns dos principais sucessos da cantora, como IDGAF e, principalmente, New Rules, faixa que alavancou Dua Lipa para o topo das principais paradas de sucesso.

Claro que essa propositada simplificação dos elementos não inviabiliza a entrega de músicas marcadas pelos detalhes. É o caso de Physical. Mesmo pronta para as pistas, feita para ser absorvida logo em uma primeira audição, a faixa esconde incontáveis camadas instrumentais, melodias e referências empoeiradas que costuram diferentes décadas e tendências. “Quem precisa ir dormir quando eu tenho você perto de mim? … Luzes apagadas, siga o barulho / Continue dançando como se você não tivesse escolha“, canta em meio a interpolações com o clássico Physical, de Olivia Newton-John, e versos que utilizam de uma deliciosa metáfora sobre o sexo.

São esses mesmos detalhes que tornam a experiência do ouvinte satisfatória durante toda a execução da obra. Canções como Pretty Please, com sua linha de baixo suculenta e sintetizadores que vão do revisionismo do Daft Punk ao pop futurístico do Disclosure. Em Hallucinate, sétima faixa do disco, batidas eletrônicas que transitam por entre clássicos como Ray of Light (1998), de Madonna, e Fever (2001), de Kylie Minogue, porém, dentro da mesma linguagem comercial de Lady Gaga e Katy Perry. Um misto de passado e presente, reverência e interpretação, como se Dua Lipa fosse capaz de transitar por diferentes campos da música de forma autoral, preservando própria identidade criativa.

Entretanto, assim como no álbum anterior, o grande problema de Future Nostalgia são os excessos. O que diabos uma música como Good In Bed faz em um disco como esse? Seja por imposição da gravadora ou escolha da própria artista, não existem argumentos que justifiquem a presença de uma faixa tão deslocada musicalmente. Mesmo a derradeira Boys Will Be Boys, com uma importante reflexão sobre a forma como a sociedade minimiza o comportamento abusivo dos homens, segue um caminho oposto, como uma fuga inexplicável do restante da obra. Instantes de evidente desequilíbrio que pervertem tudo aquilo que a cantora garante até a dobradinha composta por Love Again e Break My Heart, um dos momentos de maior acerto do registro.

Mesmo pontuado por instante de evidente instabilidade, o que prevalece em Future Nostalgia são os acertos. Da identidade visual que conta com direção criativa de Hugo Comte, parceiro de Caroline Polachek no ainda recente Pang (2019), passando por referências à obra do INXS, em Break My Heart, evidente é o cuidado de Dua Lipa durante toda a execução da obra. Canções que preservam o que há de mais acessível no álbum anterior da cantora, porém, encontram na fina veste conceitual a base para um trabalho que parece maior a cada nova audição. Uma interpretação curiosa e saudosista do passado, mas que em nenhum momento perde seu frescor.