"Help"

Duval Timothy

Ano: 2020
Selo: Carrying Colour
Gênero: Experimental, Neo-Soul, Jazz
Para quem gosta de: Blood Orange e Yves Tumor
Ouça: Fall Again e Slaves
Nota: 8.0

Crítica | Duval Timothy: “Help”

O caminho percorrido em Help (2020, Carrying Colour) talvez não seja dos mais convidativos, contudo, está longe de parecer inacessível. Terceiro e mais recente álbum do multi-instrumentista, compositor e produtor Duval Timothy, o registro de essência plural passeia por diferentes campos das artes sem necessariamente abraçar um conceito ou sonoridade específica. São canções produzidas a partir de trechos de áudio enviados por familiares do artista de ascendência serra-leonesa, melodias sofisticadas e instantes de maior improviso, proposta que não apenas reflete a completa versatilidade do músico londrino, como possibilita o diálogo com um time seleto de colaboradores espalhados ao redor do mundo.

Co-produzido em parceria com Rodaidh McDonald (King Krule, The xx) e Marta Salogni (Björk, Dream Wife), Help, como o próprio título aponta, é um trabalho que discute saúde mental e autoaceitação a partir do encontro de Timothy com diferentes realizadores em estúdio. Composições sempre pontuadas por depoimentos reais e instantes de maior vulnerabilidade, como se para além do caráter experimental que serve de sustento ao álbum, o músico britânico fizesse das próprias relações um elemento de diálogo com o ouvinte, proposta que se acaba se refletindo durante toda a execução da obra.

As coisas nem sempre melhoram. Não é apenas uma questão de tempo até que tudo dê certo. Todo mundo quer acreditar que vai. Tudo vai dar certo e eu não acredito que vai“, reflete a voz em TDAGB, terceira faixa do disco e uma clara síntese de tudo aquilo que Timothy discute ao longo do trabalho. São delicadas paisagens instrumentais que passeiam em meio a conflitos existencialistas, medos e instantes de doce melancolia, proposta que naturalmente aponta para os primeiros registros do músico em carreira solo, como Brown Loop (2016) e Sen Am (2017), porém, de forma sempre imprevisível, tratamento que faz de cada composição um objeto curioso.

Exemplo disso pode ser percebido em Fall Again. Uma das primeiras faixas do disco a serem apresentadas ao público, a canção parte de uma base limpa de pianos, lembrando as criações de Nina Simone, porém, cresce na fina sobreposição de vozes compartilhadas por Lil Silva e Melanie Faye. São guitarras, ruídos e sirenes que ora apontam para a obra de Blood Orange, era esbarram nos temas jazzísticos da novíssima cena inglesa. Canções que vão do reducionismo dos arranjos ao uso de experimentações com a música eletrônica, marca da delirante Like, composição que se destaca pelo uso de sintetizadores e batidas tortas assumidas pelo conterrâneo Vegyn.

Interessante notar que mesmo pontuado por questões existencialistas e conflitos vividos pelo próprio compositor, Help a todo momento incorpora diferentes temáticas e novas abordagens criativas. É o caso de Slaves. Composta em parceria com Twin Shadow, também colaborador em Groundnut, a canção se aprofunda na temática racial a partir de debate sobre o controle exercido pelas gravadoras em relação aos próprios artistas. “Escravos! Escravos! Escravos!“, repete o coro de vozes enquanto pianos inexatos correm ao fundo da canção. Retalhos instrumentais e poéticos que a todo instante distanciam o registro de uma possível zona de conforto.

Completo pela participação do produtor britânico Mr. Mitch, em Something, e toda um conjunto de vozes que surgem e desaparecem durante toda a execução do álbum, Help utiliza da incerteza como estímulo natural para cada novo movimento do músico dentro de estúdio. Parte desse resultado vem próprio processo de composição do trabalho. Com gravações divididas entre Londres e Los Angeles, Timothy se permite trilhar novos caminhos e ampliar tudo aquilo que tem sido apresentado em Brown Loop, fazendo do encontro com diferentes artistas e colaboradores o estímulo para uma obra essencialmente diversa, porém, acolhedora durante toda sua execução.