"Acts of Rebellion"

Ano: 2020
Selo: Domino
Gênero: Eletrônica, Synthpop, Electropop
Para quem gosta de: Kelly Lee Owens e Laurel Halo
Ouça: Megapunk e l Cielo No Es de Nadie
Nota: 8.0

Crítica | Ela Minus: “Acts of Rebellion”

De origem colombiana, Ela Minus passou grande parte da adolescência imersa em uma série de projetos relacionados à cena punk/hardcore de Bogotá. Entretanto, com o início da vida adulta e a mudança para os Estados Unidos, onde se dedicou ao estudo da bateria e sintetizadores, a cantora, compositora e produtora sul-americana estreitou a relação com os temas eletrônicos. O resultado desse intenso processo criativo está na entrega de uma série de composições avulsas em que parece testar os próprios limites dentro de estúdio, alternando entre momentos de maior experimentação e faixas que sutilmente conduzem o ouvinte em direção às pistas.

Com a chegada do primeiro álbum em carreira solo, Acts of Rebellion (2020, Domino), Minus não apenas preserva parte do material entregue em faixas como Ceremony, Juan Sant e Jamaica, como as amplia consideravelmente. Do uso calculado dos sintetizadores, texturas e vozes, passando pelo maior refinamento dado às batidas, cada fragmento do registro produzido e gravado em um estúdio caseiro nasce como um acumulo das experiências vividas pela colombiana. Um criativo cruzamento de ideias que evoca o trabalho de outros nomes recentes da produção eletrônica, como Kelly Lee Owens, mas que em nenhum momento sufoca a identidade da artista.

Parte desse resultado vem justamente dos temas abordados pela cantora durante toda a execução da obra. São versos calcados no forte discurso político e lirismo contestador de Minus, uma imigrante imersa no cenário opressor proposto pelo governo de Donald Trump. “Parece que não conseguimos encontrar / Um motivo para ficarmos quietos / Temos medo de ficarmos sem tempo / Para defender nossos direitos“, canta enquanto prepara o terreno para o refrão cíclico que se conecta diretamente à base instrumental da canção. “Você não vai nos fazer parar / Você não vai nos fazer parar a corrida“, repete, como necessário grito de fúria e libertação.

Mesmo quando canta sobre os próprios sentimentos, Minus em nenhum momento perde a segurança e firmeza das palavras. “Tenho medo de me perder / Em seus olhos e não me ver / A linha que separa você de mim / Está ficando mais escuro“, confessa em ​El cielo no es de nadie, uma das primeiras composições do disco cantadas em espanhol e um indicativo claro da completa vulnerabilidade da artista. “Nessa música, canto sobre o que significa amar alguém de verdade. Eu digo, ‘todo mundo vai à lua e volta para mostrar a alguém o quanto a ama’, mas qualquer um pode fazer isso. Então, se você me ama, não me dê a lua ou grandes gestos. Esteja presente todos os dias“, respondeu em entrevista à Apple Music, sintetizando parte das experiências incorporadas durante toda a execução da obra.

São justamente essas pequenas quebras conceituais e momentos de maior exposição sentimental que revelam a versatilidade de Minus. Canções como a atmosférica Let Them Have The Internet, faixa em que se distancia do uso das vozes e batidas eletrônicas para investir em um material regido pela leveza dos arranjos. Mais à frente, em Close, um propositado resgate das origens latinas, conceito que se reflete não apenas no tratamento dado à base rítmica da canção, como na breve interferência do músico Roberto Carlos Lange, do Helado Negro. A própria They told us it was hard, but they were wrong, com sua formação intensa e uso frenético dos sintetizadores, em nenhum momento distancia Minus de um resultado acessível, dialogando com uma parcela ainda maior do público.

Nesse sentido, Acts of Rebellion cumpre todas as funções de um registro de estreia. São canções que incorporam para diferentes abordagens criativas, confessam parte das referências e desejos da produtora colombiana em ampliar os próprios horizontes. Pequenos atos de rebelião, como o título do trabalho logo aponta, mas que em nenhum momento perdem a consistência e forte relação entre as faixas. É como se tudo fosse explorado dentro de um mesmo território criativo. Canções que vão da crueza das batidas ao parcial recolhimento dos sintetizadores, proposta que conduz com naturalidade a experiência do ouvinte do primeiro ao último instante da obra.