"Electra"

Ano: 2019
Selo: Joia Moderna
Gênero: MPB, Samba
Para quem gosta de: Céu, Maria Bethânia e Adriana Calcanhotto
Ouça: Areia Fina e Pelo Amor de Deus
Nota: 8.0

Crítica | “Electra”, Alice Caymmi

Em um lento processo de desconstrução, Alice Caymmi passou os últimos anos brincando com a própria identidade criativa. Do som torto que embala o primeiro álbum em carreira solo, casa de faixas como Água Marinha e Sargaço Mar, passando pela clara tentativa em dialogar com uma parcela maior do público, em Rainha dos Raios (2014) e no ainda recente Alice (2018), sobram instantes em que a cantora carioca perverte a própria essência, mudando de direção a cada registro de inéditas. Uma fuga declarada do óbvio, estrutura que assume novo e inusitado direcionamento nas canções de Electra (2019, Joia Moderna).

De essência dramática, como se pensado para os palcos, o trabalho gravado em apenas dois dias ao lado do pianista Itamar Assiere, mostra a força e completa entrega emocional de Caymmi. Do momento em que tem início, na versão para De Qualquer Maneira, música originalmente composta por Candeia, até alcançar a derradeira Aperta Outro, de Danilo Caymmi e Ana Terra, cada fragmento do disco sintetiza a capacidade da artista em fazer de versos assinados por diferentes compositores a base para um registro particular, sempre doloroso.

São desilusões amorosas, instantes de profunda melancolia, medo e abandono, estrutura que vem sendo aprimorada pela artista desde o primeiro álbum de estúdio, mas que alcança novo resultado nas canções de Electra. “Pelo amor de Deus / Me deixe livre pra pensar / Veja o que me fez / Me fez sofrer, me fez chorar“, desaba emocionalmente em Pelo Amor de Deus, música originalmente composta no início dos anos 1970, por Tim Maia, mas que acaba se transformando em uma criação própria de Caymmi, efeito da voz forte que conduz a experiência do ouvinte até o último instante da faixa.

A mesma vulnerabilidade acaba se refletindo na dolorosa Areia Fina. Parte do segundo álbum de estúdio da extinta dupla Letuce, Manja Perene (2012), a composição se espalha aos poucos, sem pressa, como se Caymmi preparasse o terreno para a forte carga emocional que orienta a canção em seus momentos finais. “Todo mundo é feito de uma alma, osso e carne / Todo mundo afoito forjando intimidade / Tudo o que é perfeito dá defeito cedo ou tarde“, canta enquanto Assiere ocupa as pequenas brechas da canção, reforçando a dramaticidade que segue até a música seguinte, Mãe Solteira, de Elton Medeiros e Tom Zé.

Mesmo dentro desse universo dominado pela força dos sentimentos, não há como ignorar o exagero e breve desequilíbrio que embala músicas como Medo. Trata-se de uma clara tentativa da cantora em emular um fado, estrutura que encanta pela composição minuciosa dos arranjos, mas que tropeça no uso de um falso sotaque português. Surgem ainda faixas como a curtinha Me Deixa Mudo, composição parece romper com a atmosfera densa que orienta a experiência do ouvinte durante toda a execução da obra, gerando um propositado desconforto. Nada que prejudique de forma drástica o rendimento do trabalho.

Completo pela criativa identidade visual que evoca o mito grego de Electra, base conceitual para o registro, o trabalho concebido em parceria com DJ Zé Pedro, colaborador de longa data da cantora, mostra Caymmi em um universo dominado pelas possibilidades. Longe do som comercial detalhado em faixas como Eu Te Avisei, ao lado de Pabllo Vittar, sobrevive no minimalismo dos arranjos e repertório pouco convencional a passagem para uma obra maior e mais complexa a cada nova audição. Instantes em que a artista carioca parece dialogar com a extensa discografia de representantes da própria família, porém, de forma deliciosamente torta e irregular.