"AmarElo"

Ano: 2019
Selo: Laboratório Fantasma
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Rashid e Drik Barbosa
Ouça: AmarElo, Ismália e Principia
Nota: 8.8

Crítica | Emicida: “AmarElo”

Instantes de doce celebração e versos consumidos pelo caos. Em AmarElo (2019, Laboratório Fantasma), terceiro e mais recente álbum de estúdio de Emicida, o rapper paulistano utiliza da dualidade dos sentimentos como um estímulo natural para a construção das letras. Canções que tratam sobre amizade (Quem Tem Um Amigo Tem Tudo), relacionamentos (9nha) e as Pequenas Alegrias da Vida Adulta de forma sempre sensível, conceito anteriormente testado pelo artista, durante o lançamento do ótimo Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (2015), porém, completo pelo lirismo sóbrio de composições que apontam para o que há de mais doloroso em nosso cotidiano.

Não por acaso, Emicida escolheu a crescente Principia, colaboração com Fabiana Cozza e as Pastoras do Rosário, como faixa de abertura do disco. Dotada de uma força descomunal, lembrando o encontro entre Kanye West e Chance The Rapper, em Ultralight Beam, a composição vai do ódio à libertação, do medo ao acolhimento em uma estrutura que trata do amor como um componente de transformação. O próprio texto de encerramento da canção, interpretado pelo Pastor Henrique Viera, aponta isso. “O amor perdoa o imperdoável. Resgata a dignidade do ser. É espiritual. Tão carnal quanto angelical. Não tá no dogma ou preso numa religião“, reforça, indicando a direção seguida pelo artista até a música de encerramento do álbum, a trilingue Libre, reencontro com a dupla franco-cubana Ibeyi.

São justamente essas interferências pontuais que tornam a experiência de ouvir AmarElo tão gratificante. Da voz atmosférica de MC Tha, em A Ordem Natural das Coisas, passando pelo encontro com Zeca Pagodinho, em Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo), criação completa pela coletivo japonês Tokyo Ska Paradise Orchestra, cada fragmento do disco se abre para a chegada de um time seleto de colaboradores. É o caso da faixa-título do álbum, canção que não apenas resgata trechos de Sujeito de Sorte, música originalmente apresentada por Belchior (1946 – 2017) no clássico Alucinação (1976), como discute suicídio e depressão a partir do encontro com Pabllo Vittar e Majur. “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes / Achar que essas mazelas me definem, é o pior dos crimes / É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóiz sumir / Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro“, cresce a letra da canção.

Nada que se compare ao lirismo turbulento que toma conta de Ismália, oitava composição do disco. Marcada pela presença da baiana Larissa Luz e a voz complementar da atriz Fernanda Montenegro, a canção se distancia do núcleo sorridente da obra para indicar a força das rimas lançadas por Emicida. Pontuada por trechos do poema homônimo do mineiro Alphonsus de Guimaraens (1870 – 1921), a canção discute o extermínio da população negra no Brasil a partir de dois fuzilamentos recentes comandados por policiais. De um lado, a progressão numérica sobre a morte de cinco jovens que saíram para celebrar o primeiro salário de um deles (“Cinco vida interrompida / Moleques de ouro e bronze / Tiros e tiros e tiros / O menino levou 111“), no outro, o assassinato de Evaldo Rosa e Luciano Macedo durante um passeio de carro com a família (“80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo“).

A mesma força na composição dos versos acaba se refletindo na canção seguinte do disco, Eminência Parda. Inaugurada pela voz de Dona Onete e completa pela presença de Jé Santiago e Papillon, a faixa nasce como uma exaltação ao povo preto, utilizando de pequenas conquistas pessoais do rapper como um exercício de ocupação e estímulo para a formação dos versos. “Meu cântico fez do Atlântico um detalhe quântico / Busco em mim nos temporais / Num se mede coragem em tempo de paz Estilo Jesus 2.0 / Caminho sobre as água da mágoa dos pangua que caga essas regra que me impuseram“, rima. Um intrincado jogo de palavras, conceito que tem sido aprimorado pelo artista desde a estreia com Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe… (2009).

Com imagem de capa produzida pela fotógrafa Claudia Andujar e produção assinada pelo experiente Nave Beatz, artista que já trabalhou com nomes como Criolo e Karol Conká, AmarElo transita por entre gêneros, rimas e possibilidades de forma sempre detalhista, versatilidade que naturalmente aponta para o material entregue pelo artista no também maduro O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013). Canções que se revelam ao público como pequenos refúgios sentimentais, vide a delicada Cananéia, Iguape e Ilha Comprida, porém, sempre de forma consciente, sóbria, como se Emicida jamais fechasse os olhos e tapasse os ouvidos para o ambiente que o cerca.



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