"Empty Country"

Ano: 2020
Selo: Get Better
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Car Seat Headrest, Jay Som e (Sandy) Alex G
Ouça: Marian, Chance e Ultrsound
Nota: 8.2

Crítica | Empty Country: “Empty Country”

Como vocalista e principal articulador do Cymbals Eat Guitars, o músico Joseph D’Agostino trabalhou na composição de alguns dos exemplares mais significativos da produção independente na última década. Da estreia com Why There Are Mountains (2009), passando pela entrega de registros como Lenses Alien (2011), LOSE (2014) e Pretty Years (2016), sobram composições que refletem a capacidade do cantor e compositor estadunidense em não apenas preservar a própria identidade, como em estabelecer pequenos diálogos criativos com a obra de veteranos como Modest Mouse, Pavement e The Wrens.

Com o fim das atividades da banda, D’Agostino decidiu investir em um novo projeto, o Empty Country. Entretanto, é partindo da mesma base melódica empregada nos últimos trabalho do Cymbals Eat Guitars que o artista norte-americano revela ao público as canções do presente disco. São coros de vozes, guitarras carregadas de feitos e harmonias nostálgicas que vão do Big Star a Tom Petty. Uma criativa colagem de ideias e referências pessoais, estrutura que convida o ouvinte a se perder em um território marcado pela nostalgia dos temas.

Não por acaso, D’Agostino fez de Marian a faixa de abertura do disco. Enquanto os versos da canção partem de uma reflexão sobre a morte da avó do artista, atropelada por um motorista bêbado, musicalmente, a canção entrega tudo aquilo que o Cymbals Eat Guitars vinha produzindo desde a estreia com Why There Are Mountains. “Bêbado e invulnerável / Dirigindo para casa na neve / O pique é um túnel do tempo, cordeiro querido / Não se incomodará em sair / Já vi o caminho que acaba para mim“, canta enquanto camadas de guitarras encolhem e crescem durante toda a execução da faixa.

Entretanto, para além da simples reciclagem de tendências e fórmulas há muito consolidadas pelo artista, D’Agostino se permite avançar criativamente. São arranjos acústicos, como em Diamond, logo na abertura do disco, o uso destacado dos pianos, marca da melancólica Clearing, e, principalmente, canções que transitam por entre ritmos de forma sempre detalhista, marca da derradeira Swim. São pouco mais de seis minutos em que o músico vai do cancioneiro norte-americano ao pós-rock em uma inusitada colisão de elementos que inclui arranjos de cordas, vozes atmosféricas e uma guitarra que parece apontar para os anos 1970.

Nada que se compare ao material entregue na também detalhista Chance. Faixa mais extensa do disco, a canção parte de uma estrutura atmosférica para mergulhar em uma criação quase transcendental. São pianos e melodias acústicas que parecem saídas de algum disco do Flaming Lips, vide a forte similaridade com as harmonias detalhadas no clássico The Soft Bulletin (1999). Surgem ainda preciosidades como a crescente Ultrasound, canção que preserva parte da identidade criativa dos antigos trabalhos de D’Agostino, porém, encontra na riqueza das vozes e guitarras a passagem para um novo direcionamento estético.

Misto de sequência e fina transformação de tudo aquilo que D’Agostino havia testado anteriormente, a estreia como Empty Country mostra a capacidade do músico norte-americano em se reinventar dentro de estúdio, porém, preservando uma série de elementos e assinaturas sonoras originalmente testadas em sua antiga banda. Canções que utilizam de memórias (Emerlad, Diamond), personagens (Mirian, Becca) e recordações pessoais (Chance, Swim) de forma sempre sensível, riqueza que ultrapassa os limites dos versos e se reflete em cada nota que escapa das guitarras do artista.