"Everything Not Saved Will Be Lost – Part 1"

Ano: 2019
Selo: Transgressive / Warner Bros.
Gênero: Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Everything Everything
Ouça: Sunday, Exits e On The Luna
Nota: 7.5

Crítica | “Everything Not Saved Will Be Lost – Part 1”, Foals

Em algum momento entre Total Life Forever (2010) e What Went Down (2015), Yannis Philippakis e os demais integrantes do Foals parecem ter encontrado um ponto de equilíbrio entre o propositado estranhamento detalhado de Antidotes (2008) e a busca declarada por um som minimamente comercial, em Holy Fire (2013). O resultado dessa formatação, talvez não intencional, está na construção das dez faixas que embalam o quinto e mais recente álbum de estúdio do grupo britânico, Everything Not Saved Will Be Lost – Part 1 (2019, Transgressive / Warner Bros.).

Primeiro álbum de estúdio da banda em quatro anos, o registro que conta com co-produção de Brett Shaw (Robyn, Florence + The Machine) não apenas segue de onde o grupo parou, em What Went Down, como resgata uma série de elementos originalmente testados pelo Foals desde o início da carreira. Da construção das guitarras, marcada pela minúcia dos arranjos, curvas e quebras rítmicas, ao niilismo presente nos versos, cada composição do disco se projeta em um misto de reinvento e propositado regresso criativo, direcionamento que orienta a experiência do ouvinte até a derradeira I’m Done with the World (& It’s Done with Me).

Exemplo disso ecoa com naturalidade logo na abertura do disco, em Exits. Primeira grande composição do álbum, a canção parte de uma base cíclica montada a partir de guitarras, vozes e uma linha de baixo suculenta que convida o ouvinte a dançar. É como se o grupo britânico resgatasse parte da atmosfera detalhada em algumas de suas principais criações, caso de My Number, porém, em um atmosfera menos eufórica, lenta, como um parcial regresso ao ambiente soturno de Miami, Black Gold e demais faixas apresentadas em Total Life Forever.

De fato, a todo momento o grupo inglês parece criar pequenas pontes criativas para o trabalho entregue há quase uma década. Do uso instrumental da voz, na enérgica White Onions, passando pela atmosfera densa de Cafe d’Athens e Sunday, evidente é o esforço da banda em romper com a crueza detalhada em What Went Down, fugindo desse habitual rock “suado” e pouco inventivo para investir em uma obra marcada pelos detalhes. São temas percussivos e camadas sobrepostas que, mesmo ancoradas em velhas ideias, se tingem de novidade.

A principal diferença em relação aos últimos trabalhos da banda está no uso apurado dos sintetizadores de Edwin Congreave. São camadas atmosféricas e estruturas climáticas que correm em paralelo às guitarras de Philippakis e Jimmy Smith, transportando o som produzido pelo Foals para um universo parcialmente transformado. Perfeita representação desse novo direcionamento cresce com naturalidade em On the Luna e Syrups, composições que reforçam o aspecto nostálgico da obra. Nada que se compare ao trabalho do grupo em In Degrees, música não apenas dominada pelos sintetizadores de Congreave, mas, principalmente, pelas batidas e interferências dançantes do baterista Jack Bevan.

Divido entre instantes de breve euforia e músicas contemplativas, Everything Not Saved Will Be Lost – Part 1 pinta um retrato curioso de tudo aquilo que vem sendo produzido pelo Foals desde o início da carreira. Não por acaso, a banda decidiu dividir o trabalho em duas partes específicas, reservando a segunda metade da obra para o segundo semestre deste ano. Um colorido catálogo de ideias e experiências que não apenas sintetiza a obra do grupo, como aponta a direção que deve ser seguida nos próximos meses.