"Prelúdio"

Ano: 2020
Selo: Now-Again Records
Gênero: Folk, Jazz, MPB
Para quem gosta de: Baden Powell e Kiko Dinucci
Ouça: Rio Tapajós, Mente Azul e Malandro
Nota: 8.0

Crítica | Fabiano do Nascimento: “Prelúdio”

Na ausência de palavras, um mundo de histórias narradas pelo violão. Três anos após o lançamento de Tempo dos Mestres (2017), obra em que confessa algumas de suas principais referências criativas, o violonista carioca Fabiano do Nascimento está de volta com um novo trabalho de estúdio: Prelúdio (2020, Now-Again Records). Marcado pela minúcia dos elementos, o trabalho de essência detalhista passeia em meio a incontáveis paisagens instrumentais, fragmentos extraídos de diferentes campos da produção brasileira e memórias musicais, conceito que tem sido explorado pelo artista radicado em Los Angeles desde a estreia com Dança do Tempo (2015).

Obra de detalhes, o registro produzido em parceria com Mario Caldato, Jr. (Beastie Boys, Marcelon D2) e Luther Russell, parceiro desde o primeiro álbum de estúdio, diz a que veio logo nos primeiros minutos, na introdutória Rio Tapajós. São pouco menos de três minutos em que o violão de Nascimento segue em meio a curvas e formas sempre imprevisíveis, convidando o ouvinte a se perder em um cenário de essência labiríntica, por vezes misterioso. É como se cada novo movimento tingisse com incerteza a experiência do ouvinte, ampliando tudo aquilo que o músico havia testado no disco anterior.

A principal diferença em relação aos antigos trabalhos do violonista, principalmente quando voltamos os ouvidos para o introdutório Dança do Tempo, está na maior limpidez da captação e formas sempre precisas. É como se cada elemento, mesmo os mais discretos, fossem percebidos de maneira clara. Exemplo disso está na sofisticada Malandro, sexta faixa do disco. Do ruído gerado a partir do encontro entre os dedos e as cordas do violão, passando pela percussão minuciosa de Ricardo “Tiki” Pasillas, presente durante toda a execução da obra, perceba como incontáveis camadas instrumentais surgem e desaparecem, dançando pela cabeça do ouvinte.

Mesmo a voz ganha novo significado dentro da estrutura do disco. São vocalizações tratadas de forma instrumental, sempre sensíveis, estrutura que evoca com naturalidade a obra de João Gilberto, porém, preserva a identidade criativa de Nascimento. Perfeita representação desse resultado ecoa em Mente Azul. Partindo do dedilhado sutil do violonista, sempre acompanhado pela percussão de Pasillas, a canção estabelece pequenos respiros atmosféricos onde a voz se projeto de forma enevoada, ocupando as pequenas brechas da canção. O mesmo resultado acaba se refletindo mais à frente, em Prelúdio Amazônico, música marcada pela rara aparição dos versos e uso de um canto fluido.

Regido pela leveza dos arranjos, interessante perceber em faixas como Tributo um curioso ponto de ruptura dentro da obra. Do uso ritmado da percussão à turbulência dos arranjos, cada fragmento da canção parece pensado para bagunçar a experiência do ouvinte, conceito anteriormente testado em Tempo Dos Mestres. A própria faixa de encerramento do disco, Trem-Bala, sustenta na rigidez dos arranjos um ponto de ruptura quando próxima do bloco inicial do disco. Pouco mais de quatro minutos em que a bateria de Pasillas parece duelar com o violão de Nascimento, fazendo da voz cíclica um complemento necessário.

Dividido entre o permanente resgate de antigas referências e a busca por novas possibilidades, Nascimento garante ao público um disco equilibrado. São canções que passeiam com naturalidade pela obra de Rosinha de Valença e Baden Powell, porém, a todo momento regressam ao ambiente particular do violonista, conceito que se reflete desde a estreia, com Dança do Tempo, mas que ganha ainda mais destaque dentro do presente álbum. Um misto de passado e presente, estrutura que mostra a capacidade do músico carioca em colidir diferentes sonoridades, formas e experiências sensoriais dentro de um curto intervalo de tempo.