"Falha Comum"

Ano: 2019
Selo: Nada Nada / Dama da Noite
Gênero: Experimental, Pós-Punk
Para quem gosta de: In Venus e Jair Naves
Ouça: Fim do Mundo e Estrela da Manhã
Nota: 8.0

Crítica | “Falha Comum”, Rakta

Classificar o som produzido pelas integrantes do Rakta está longe de parecer uma tarefa simples. Entre abstrações eletrônicas, ruídos e vozes fantasmagóricas, cada novo registro autoral do grupo composto por Carla Boregas (baixo), Paula Rebellato (sintetizadores e voz) e Maurício Takara (bateria e percussão) não apenas perverte a própria identidade musical, como sutilmente distorce tudo aquilo que a banda — antes completa pela baterista Nathalia Viccari —, vinha experimentando desde os primeiros experimentos em estúdio.

Não por acaso, cada nova canção entregue pelo trio em Falha Comum (2019, Nada Nada / Dama da Noite), mais recente álbum de estúdio da banda, convida o ouvinte a se perder em um universo marcado pela incerteza das formas instrumentais e versos. Do momento em que tem início, na autointitulada faixa de abertura, perceba como o trio parece mudar de direção a todo instante, detalhando camadas de vozes, ambientações e ruídos eletrônicos que encolhem e crescem de forma sempre irregular, torta, ampliando os domínios da obra.

Exemplo disso está nos pouco mais de seis minutos de 笑笑, terceira faixa do disco. Partindo da linha de baixo destacada de Boregas, lentamente a canção se perde em um território marcado pelo uso delirante das vozes e sintetizadores. São variações instrumentais, gritos e inserções quase ritualísticos, como uma canção resgatada de algum clássico do cinema de horror dos anos 1970. Camadas e sobreposições claustrofóbicas, porém, sutilmente dissolvidas em uma estrutura quase acolhedora, como uma fuga do material entregue minutos antes, na intensa Flor da Pele.

Claro que essa propositada busca do trio por um registro experimental não interfere na produção de músicas minimamente acessíveis. É o caso de Fim do Mundo. Inaugurada em meio a versos declamados, sintetizadores e batidas levemente dançantes, a faixa de sete minutos não apenas se distancia do restante da obra, como reflete a capacidade do grupo em dialogar com uma parcela maior do público. De linha de baixo destacada ao uso minucioso da voz, difícil escapar do som hipnótico que ganha forma e cresce ao longo da canção.

Na sequência formada por Estrela da Manhã e Miragem, o mesmo comprometimento estético. De um lado, uma canção de essência atmosférica, quase cósmica, estrutura que muito se aproxima do material produzido por estrangeiras como Warpaint. No outro, o ritmo crescente, força e novo fôlego de uma canção dominada pela intensidade das batidas e reverberações eletrônicas. É como um regresso à faixa de abertura do disco, porém, partindo de uma estrutura ainda mais turbulenta.

Provocativo até o último instante, vide a derradeira Ruína, Falha Comum transporta para dentro de estúdio a mesma energia e entrega explícita nas apresentações ao vivo do Rakta. O mais curioso talvez seja perceber a forma como o trio paulistano brinca com a a corrupção das ideias, porém, dentro de uma estrutura essencialmente detalhista. São finas camadas instrumentais e vozes ecoadas, direcionamento que força uma audição atenta por parte do ouvinte, convidado a se perder pelo imenso labirinto sonoro e conceitual que serve de sustento ao registro.



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