"Faz Party"

Ano: 2019
Selo: Honey Bomb Records / Lezma Records
Gênero: Indie, Eletrônica, Pop Rock
Para quem gosta de: Catavento, Jeremaia e Boogarins
Ouça: Social Animal e Carro dos Sonhos
Nota: 7.0

Crítica | “Faz Party”, Supervão

Pop, torto e deliciosamente psicodélico. Esse tem sido o direcionamento adorado pelos integrantes da Supervão desde o início da carreira. Basta uma rápida passagem pelos dois primeiros EPs de inéditas da banda, Lua Degradê (2016) e TMJNT (2017), para perceber a estrutura anárquica incorporada pelos músicos Mario Arruda, Leonardo Serafini e Ricardo Giacomoni. Composições que dialogam de forma expressiva com tudo aquilo que vem sendo produzido na cena estrangeira, porém, ainda íntimas de fórmulas e ritmos genuinamente brasileiros, estrutura que ganha ainda mais destaque no primeiro álbum de estúdio do trio gaúcho.

Intitulado Faz Party (2019, Honey Bomb Records / Lezma Records), o registro de essência delirante, atmosfera tropical e letras dotadas de lirismo singular estabelece na composição dançante das batidas a passagem para um universo estranhamente convidativo. Exemplo disso está em Social Animal, um pop ensolarado, leve, mas que se completa pela poesia crítica da canção. São versos maquiados, mas que acabam discutindo o distanciamento entre os indivíduos a partir das redes sociais, como criaturas alienígenas vindas de outro planeta. “Eu acredito em disco voador“, martela a voz cíclica de Arruda.

O mesmo direcionamento metafórico se reflete na sensível Carro dos Sonhos. Concebida a partir do samples de um vendedor ambulante no centro de Porto Alegre, a canção se revela aos poucos, detalhando cenas e acontecimentos de forma descritiva. São fragmentos que tratam do sonhar como um produto real e capaz de ser comercializado. Um lento desvendar de ideias que naturalmente aponta para o trabalho de bandas como Boogarins e demais representantes da psicodelia brasileira, estrutura reforçada pelo uso de vozes duplicadas e esmero na composição das guitarras que correm ao fundo da faixa.

De fato, Faz Party talvez seja o registro em que o trio gaúcho mais se esforça na composição dos arranjos. Do misto de axé e pop eletrônico que embala a inaugural Toneladas, passando pelos guitarras coloridas de Castanha, ao cuidado na formação das batidas de Asabelha e a Capoeira, inusitada releitura do som produzido em Os Afro-Sambas (1966), de Baden Powell e Vinicius de Moraes, cada fragmento do disco parece transportar o ouvinte para um novo universo conceitual. Instantes em que a banda vai do regionalismo brasileiro ao uso de referências estrangeiras, versatilidade evidente em Sol do Samba, um techno-house futurístico e quente, pronto para as pistas.

Se por um lado essa criativa colagem de ideias reflete a capacidade da banda em brincar com as possibilidades dentro de estúdio, por outro, parece difícil se conectar com o trabalho logo em uma primeira audição. São melodias abstratas, quebras e pequenas corrupções estéticas que tornam a experiência do público sempre imprevisível, distanciando o ouvinte do álbum. Uma permanente busca pelo novo que beira o descontrole, proposta evidente na faixa de encerramento do disco, Vê Se Chega Na Terra Sem Nome, canção que vai do reggae à música árabe, do rock clássico ao pop eletrônico.

Entretanto, uma vez imerso nesse conceito inexato dado ao disco, difícil escapar das canções apresentadas pela banda. Da marchinha psicodélica de Castanha, colaboração com Marco Benvegnú, da banda Irmão Victor, passando pela letargia de Cor Guia, um pós-punk com pitadas de brasilidade, aos sintetizadores de O Lírio Verde e Branco e a Druza de Ametista, tudo tende ao incerto, como uma permanente fuga do óbvio. Ideias que se espalham sem ordem aparente, ampliando de maneira significativa tudo aquilo que o trio gaúcho vem experimentando desde o surgimento com Lua Degradê.



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