"Fenda"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Rock, Dream Pop, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Duda Brack, Sofia Freire e Cinnamon Tapes
Ouça: Terra e A Velha
Nota: 7.8

Crítica | “Fenda”, Papisa

O peso da passagem do tempo, a relação com a morte e a essência mística da alma feminina. Em Fenda (2019, Independente), primeiro álbum de estúdio de Rita Oliva como Papisa, cada fragmento do disco reflete a sensibilidade e profunda entrega emocional da cantora e compositora paulistana. Mais conhecida pelo trabalho como ex-integrante das bandas Cabana Café e P A R A T I, a artista, que desde 2016 vem investindo no trabalho em carreira solo, utiliza das próprias vivências como estímulo para a composição dos versos. São poemas musicados que se espalham em meio a memórias recentes, estrutura que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra.

Há cinco anos, presenciei o momento da morte do meu avô e isso me tocou profundamente. Enquanto escrevia o disco, fui tocada por outras mortes, literais e simbólicas, e isso reabriu algumas feridas, possibilitou que outras fossem se curando”, resume no texto de apresentação do trabalho. De fato, do momento em que tem início, na lúgubre Moiras, até alcançar a faixa de encerramento do disco, Espelho, Oliva parece flutuar em meio a canções que utilizam da morte como um precioso elemento de ruptura, transformação e recomeço, partindo de metáforas e elementos simbólicos para a consolidação da própria identidade criativa.

Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade na crescente Terra, terceira faixa do disco. “Quando a terra chama / Nada te pertence / Nada te acompanha … Foi apodrecendo e se desintegrou / A matéria cede quando o fogo despede / Tem um cheiro estranho o fim” , canta em uma delicada reflexão sobre o fim da vida e o princípio de uma nova fase. Versos fortes que se completam pela inserção de batidas ocasionais, guitarras, vozes duplicadas e sintetizadores pontuados pela breve interferência de Luna França. Um lento desvendar de ideias e experiências sentimentais, estrutura que vem sendo aprimorada pela cantora desde o primeiro EP de inéditas.

Em A Velha, uma das primeiras músicas a serem apresentadas ao público, o mesmo cuidado na composição dos arranjos e versos. “Sou a cinza que era rosa / E tô na isca saborosa do anzol / Sou tua íntima velhaca / A última estaca / Eu te tiro do casulo / Te salvo e te anulo“, cresce a letra da canção enquanto sintetizadores e guitarras se espalham aos poucos, sem pressa. São camadas atmosféricas que servem como um delicado pano de fundo instrumental para a letra existencialista de Oliva. Fragmentos poéticos que vão da ancestralidade feminina à inevitabilidade da morte, elemento que encolhe e cresce durante toda a formação do álbum.

Com base nessa estrutura, Papisa entrega ao público uma obra densa, por vezes difícil de ser absorvida e que exige tempo até seduzir o público. Trata-se de uma propositada fuga de conceitos imediatistas, estrutura que se reflete na própria base melódica do disco, sempre guiada pelo uso de guitarras atmosféricas e vozes tratadas como instrumentos. Ambientações que se distanciam de uma estrutura típica do rock tradicional, resultando na formação de pequenos mantras. Exemplo disso está em Roda, música que utiliza do minucioso jogo palavras para dançar na cabeça do ouvinte — “Nada volta, faz a volta e vai / Nada volta, só dá a volta e vai / Pelo centro, vê a roda e vai“.

Dividido entre instantes de fúria (Terra) e momentos de forte contemplação (Nigredo, Espelho), Fenda é uma obra que sintetiza a essência criativa de Oliva. Não por acaso, a cantora e compositora paulistana decidiu produzir, gravar e tocar parte expressiva dos instrumentos de formo solitária, no isolamento do próprio quarto. São fragmentos sentimentais, experiências particulares transformadas em música e versos que se espalham em meio conflitos intimistas, estrutura que talvez distancie o ouvinte mais apressado do registro, mas que em nenhum momento faz do trabalho uma obra inacessível.

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