"Ensaio Pra Destruir"

Ano: 2021
Selo: Geração Perdida
Gênero: Indie Rock, Dream Pop, Shoegaze
Para quem gosta de: Terno Rei e BRVNKS
Ouça: Tridimensional e Elogio à Destruição
Nota: 8.3

Crítica | Fernando Motta: “Ensaio Pra Destruir”

Entre guitarras carregadas de efeitos, texturas e vozes submersas, os sentimentos de Fernando Motta ganham forma em Ensaio Pra Destruir (2021, Geração Perdida). Terceiro e mais recente álbum de estúdio do cantor e compositor mineiro, o sucessor de Desde Que o Mundo É Cego (2017) segue uma trilha parcialmente distinta em relação ao material que tem sido apresentado pelo artista belo-horizontino desde a estreia com Andando Sem Olhar pra Frente (2016). São canções que se distanciam do uso de poemas e ambientações etéreas, por vezes arrastadas, fazendo da vulnerabilidade explícita nos versos e blocos quase intransponíveis de ruídos o estímulo para uma obra essencialmente humana e tangível, como se as experiências compartilhadas pelo músico também fossem nossas.

Não por acaso, Motta fez de Tridimensional a composição escolhida para anunciar o disco. Acessível quanto próxima de tudo aquilo que o músico havia testado anteriormente, a faixa ganha forma em meio a camadas de guitarras e versos cantaroláveis, estreitando a relação com o ouvinte logo em uma primeira audição. É como se o artista incorporasse o mesmo pop rock testado em Violeta (2019), dos paulistanos da Terno Rei, porém, utilizando de uma linguagem ainda mais radiofônica, conceito que se reflete em outros momentos ao longo da obra. Canções como Elogio à Destruição, que parece saída de algum disco do Ride, em que o cantor mineiro se concentra na formação de melodias aprazíveis e letras que evocam lugares, personagens e sensações de forma sempre descritiva. “Envolto em nuvens de cetim / Ao te ver dançar / Sobre as uvas / Doce intuição / O elogio à destruição“, canta.

São criações consumidas pelo peso da memória, desilusões e conflitos emocionais vividos pelo artista. Instantes de profunda entrega, mas que em nenhum momento tendem ao exagero melodramático de outros registros do gênero. Exemplo disso acontece logo nos primeiros minutos do álbum, na crescente Essa Cidade Não Existe. Entre arranjos que evocam o trabalho de veteranos como Mineral, Motta confessa: “Devo admitir / A gente tem que conversar / O telefone toca / Toda hora suas convicções / Minha memória“. Fragmentos sentimentais e contemplativos que partem das vivências do artista, porém, lentamente incorporam uma série de elementos externos. “Andando pelo centro / Pelo mercado / Ninguém tem nada a ver / E nunca houve chance de sair / Belo horizonte não existe“, completa.

É justamente essa capacidade de Motta em ampliar os próprios domínios que torna a experiência de ouvir o trabalho tão satisfatória. Canções que transitam por momentos de calmaria e fúria, como uma extensão natural de tudo aquilo que o artista mineiro tem produzido desde a estreia com Andando Sem Olhar pra Frente. Mesmo a base instrumental do disco reflete uma pluralidade de ideias poucas vezes antes vista dentro dos registros do artista. Acompanhado de Vitor Brauer (Lupe de Lupe), responsável pela produção do álbum, o músico mineiro vai do rock entusiasmado de Tridimensional ao som ruidoso que escapa das guitarras de Paranormal. Um ziguezaguear de ideias e evidente busca por novas possibilidades, mas que em nenhum momento se distancia dos temas atmosféricos do álbuns anteriores, direcionamento bastante explícito nas sensíveis Verde-Água e Valsa de Outono.

Parte desse maior refinamento dado ao disco vem justamente do esforço de Motta em dialogar com diferentes colaboradores. É o caso do cantor e compositor Eduardo Praça (Apeles), com quem divide a atmosférica Salvo Engano, música adornada pelos pianos do convidado, e Perfeição, faixa que se abre para a chegada de João Viegas (Raça/Ombu), também responsável pela fina tapeçaria melódica que parece contrastar com as guitarras do artista mineiro. A própria canção de abertura do álbum, Insetos Rondam a Luz Acesa, ganha forma em meio a ambientações pontuais do conterrâneo Mafius, indicando parte do aspecto colaborativo que move o trabalho. Mesmo Brauer assume uma posição de destaque na já citada Tridimensional, composição que cresce nas guitarras do produtor.

Se por um lado esse desejo em provar de novas possibilidades garante ao disco uma dose extra de frescor, por outro, evidencia uma série de pequenos excessos cometidos pelo cantor. É o caso de Oslo, 31, composição que pouco avança quando próxima de outros momentos de maior melancolia da obra, e a verborrágica Contraditória 2, música que reflete a dor expressa pelo eu lírico, porém, parece dar voltas em torno de um limitado conjunto de ideias e temas sentimentais. Instantes de maior instabilidade, mas que em nenhum momento prejudicam o rendimento do álbum. Observado de forma atenta, poucas vezes antes um registro entregue pelo músico mineiro pareceu tão coeso quanto Ensaio Pra Destruir. Da disposição das faixas, alternando entre momentos de maior angústia e doce leveza, passando pela construção dos arranjos e vozes, tudo soa como uma coleção de pequenos acertos que potencializam o que há de mais sensível nas criações de Motta.

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