"Festa de Adeus"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Samba, Bossa Nova, Indie
Para quem gosta de: Silva e Rubel
Ouça: Me Acorda Antes de Partir e Arco-Íris Preto
Nota: 8.1

Crítica | “Festa de Adeus”, Julio Secchin

Mais conhecido pelo trabalho como diretor dos clipes de Lucas Santtana, Silva e Leo Justi, o cantor, compositor e produtor carioca Julio Secchin passou parte da última década se revezando na produção de um limitado conjunto de músicas autorais. São faixas como o pop etéreo de Night Lights, colaboração com Maria Luiz Jobim, as batidas fortes de Dom Pérignon ou mesmo a curiosa Control, composição em que parece dialogar com as texturas eletrônicas e ambientações de nomes como Nicolas Jaar e demais representantes da cena estrangeira.

Curioso perceber nas canções de Festa de Adeus (2019, Independente), primeiro álbum de estúdio do artista carioca, uma completa fuga do repertório entregue nos últimos anos. Como indicado no samba irônico de Bote, composição entregue ao público há poucos meses, cada fragmento da bem-sucedida estreia de Secchin encontra em elementos da música brasileira a base para um registro deliciosamente nostálgico e, ao mesmo tempo, atual.

Eu vou cantar / Nem que seja pra cantar de dor / Eu vou cantar / A beleza de perder um grande amor“, confessa de forma exageradamente romântica na empoeirada faixa-título do disco. Um misto de dor e libertação que dialoga de forma sutil com a obra de Jorge Ben Jor, Caetano Veloso e Chico Buarque, orientando parte expressiva do lirismo agridoce que serve de sustento à obra. Canções montadas a partir de memórias de um passado ainda recente, como se Secchin se afogasse em pequenas desilusões.

Exemplo disso está em Me Acorda Antes de Partir, uma bossa econômica, mas não menos tocante, sensibilidade explícita em cada verso lançado pelo artista. “Sei que roubei tua juventude / Ainda tenho todos os teus nudes / Que era pra eu apagar / Tua beleza é meio estranha / Mas toda vez você me ganha / Ao me lembrar que o estranho sou eu“, canta em um ato de profunda entrega sentimental. O mesmo refinamento poético se reflete com naturalidade em faixas como Inferno Astral e Pra Que Tão Normal, essa última, originalmente composta em 2007, porém, ainda atual, intima de qualquer ouvinte romântico.

Maior a cada nova audição, Festa de Adeus revela desde personagens tortos, como a anti-musa detalhada em Ketamina (“Me encanta tua beleza tão vazia / Covardia, covardia / Keta-Ketamina, quer mais? / Acelerou, fiquei pra trás“), até versos marcados pela profunda celebração. É o caso da inaugural Quero Um Carnaval, um axé ensolarado que prepara o terreno para a sequência de faixas entregues pelo músico até o encerramento da obra – “Se a vida é um sopro / Quero um vendaval / Se ainda for pouco / Quero um carnaval“.

Nada que se compare ao material revelado em Arco-Íris Preto. Escolhida para o encerramento do disco, a canção não apenas se distancia do restante da obra, como sintetiza o completo amadurecimento criativo de Secchin. São melodias e versos turbulentos que refletem a completa descrença do eu lírico, como um olhar descritivo, cru, sobre a cidade do Rio de Janeiro, seus personagens e acontecimentos recentes. “Eu vi o último golfinho da Guanabara / Hashtag gratidão / Eu vi a PM encher de bala / Uma preta em ascenção“, canta enquanto ruídos animalescos, batidas e metais encolhem e crescem a todo instante, ampliando de maneira explícita os limites do som incorporado em Festa de Adeus.