"Flamagra"

Ano: 2019
Selo: Warp
Gênero: Electronic, Jazz, Experimental
Para quem gosta de: Thundercat, Solange e Toro Y Moi
Ouça: More, Takashi e Land of Honey
Nota: 8.0

Crítica | “Flamagra”, Flying Lotus

Entre colaborações esporádicas, como na trilha sonora do curta-metragem Blade Runner Black Out 2022, passagens pelo programa The Eric Andre Show ou mesmo a estreia como diretor de cinema, vide o surrealista Kuso (2017), Steven Ellison passou os últimos cinco anos se revezando na produção de uma série de composições inéditas. Mesmo imerso nesse vasto conjunto de ideias e experiências autorais espalhados por diferentes campos das artes, faltava ao produtor californiano um elemento temático que servisse de base para um registro maior, costurando parte desse vasto repertório de forma a avançar criativamente, como uma extensão natural do bem-sucedido You’re Dead! (2014).

Foi somente após uma conversa com o cineasta David Lynch (Twin Peaks, Veludo Azul), que Ellison, já inspirado pela temática do fogo, encontrou o estímulo necessário para o recém-lançado Flamagra (2019, Warp). “Eu passei os últimos cinco anos trabalhando em diversas coisas, mas tudo estava muito espalhado. Eu sempre tive essa ideia temática em mente, um conceito persistente sobre o fogo, uma chama eterna no alto de uma colina”, explicou no texto de apresentação da obra. Não por acaso, o produtor fez de Fire Is Coming, colaboração com o próprio Lynch, a primeira composição do disco a ser apresentada ao público. Uma colorida colisão de ideias que parte do uso das imagens para mergulhar em um som puramente caótico, estímulo para a poesia cíclica da canção: “Há um fogo queimando pelas ruas / Todo mundo move seus pés“.

É partindo justamente dessa ambientação soturna que Ellison orienta a experiência do ouvinte durante a execução da obra. São melodias tortas, batidas que apontam para diferentes campos da música eletrônica e retalhos instrumentais que vão de um simples episódio de Dragon Ball Z ao resgate de clássicos do hip-hop, como Aquemini (1998), do Outkast. Exemplo disso está me Burning Down the House, colaboração com George Clinton que replica parte da faixa homônima lançada pelo Talking Heads, em Speaking in Tongues (1983), porém, de forma particular, caótica. Fragmentos de vozes e ambientações funkeadas que mudam de direção a todo instante, sonoridade que há tempos orienta o trabalho de Flying Lotus.

De fato, ouvir as canções de Flamagra é como se perder em meio a retalhos instrumentais que apontam para diferentes fases na carreira do produtor californiano. Do reducionismo dos elementos, em Takashi, música que resgata a atmosfera do delicado Cosmogramma (2010), passando pela climática FF4, composta para Jay-Z e um diálogo com Until the Quiet Comes (2012), sobram instantes em que Ellison parece revisitar antigos conceitos e experiências particulares de forma criativa. Mesmo a escolha de velhos colaboradores, como Thundercat, em The Climb, serve de reforço à atmosfera familiar do disco.

Dos poucos momentos em que rompe com essa estrutura, Ellison não apenas estreita a relação com diferentes nomes da cena alternativa, caso de Solange (Land of Honey), Shabazz Palaces (Actually Virtual), Anderson .Paak (More), Tierra Wack (Yellow Belly) e Denzel Curry (Black Balloons Reprise), como se aprofunda na composição de um som puramente atmosférico, doce. Prova disso está na derradeira Hot Oct., música que resgata a essência jazzística de You’re Dead!, porém, dentro de um envelopamento contido. O próprio encontro com Toro Y Moi, em 9 Carrots, não apenas preserva esse reducionismo, como sutilmente transporta o trabalho de Flying Lotus para um novo universo melódico.

Uma vez dentro desse território, Ellison costura passado e presente de forma tão referencial quanto inédita. É como se do ambiente jazzístico detalhado nas canções de You’re Dead!, o produtor californiano fosse além, mergulhando na composição de um material propositadamente inexato, torto. O resultado desse esforço está na produção de um trabalho que dialoga diretamente com a estranha identidade visual adotada por Winston Hacking para a imagem de capa do álbum. Instantes em que Flying Lotus brinca com a desconstrução da própria identidade criativa e a reciclagem de velhos conceitos, alimentando as chamas da própria imaginação.